Evento reuniu 197 inscritos entre estudantes de todos os centros da Udesc e participantes externos
Participantes viveram o evento de modo imersivo no Centro de Ciências Agroveterinárias, com equilíbrio entre discussões e vivências culturais. Fotos: Maxine Gabriel Stradioto Amaral, Leonardo Hardt Ruperti, Sara Borin e Carla Torres
A 3ª Semana Acadêmica Negra e Indígena (Sagrai), realizada pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), ocorreu entre os dias 12 e 14 de setembro, no Centro de Ciências Agroveterinárias (CAV). O evento de extensão, idealizado de modo independente por estudantes, teve o objetivo de fortalecer e tornar visível a produção acadêmica e as expressões culturais de alunos negros e indígenas.
As palestras contaram com uma composição equilibrada entre participantes negros e indígenas, cada grupo respondendo por 50% dos palestrantes. Além de conferências, atividades variadas foram oferecidas, desde oficinas culturais, como percussão e batuque, até apresentação de pesquisas em
banners, mesas de debate e exibições de documentários.
A estrutura do evento também incluiu apoio logístico da Pró-Reitoria de Extensão, Cultura e Comunidade (Proex), que colaborou com deslocamento, alimentação e seleção dos palestrantes. Ao todo, reuniram-se 197 inscritos, entre alunos de diversos centros da Udesc e participantes externos.
Sagrai: um processo coletivo de resistência, formação e sonho
A Sagrai é mais do que um evento acadêmico, é um processo que nasce do movimento estudantil, com base na coletividade e na construção horizontal. Para uma das integrantes da comissão organizadora, Sandra Anjos, esse caráter é essencial: “Antes de ser um coletivo, ela é um movimento estudantil. [...] Nossa coordenação se classifica como linear. Todas as decisões são tomadas em conjunto”. Ao relatar a experiência da organização, Sandra destaca a diversidade de perfis que compõem a Sagrai: “Eu sou da Educação Física, minha parceira é da História. As meninas que iniciaram esse sonho eram de Moda e Design. A gente é bem eclético, tanto em cores como em conhecimento também” . Ela reforça que, mais do que realizar um evento, os estudantes envolvidos aprendem na prática a lidar com diferentes dimensões da produção: “A gente sai da graduação sabendo fazer contrato, negociar com palestrante, organizar hotel, aeroporto, rodoviária. É uma bagagem enorme para nós, estudantes”.
Essa construção não ocorre sem esforço. Como conta Sandra, “a gente faz a Sagrai no meio das aulas, dos trabalhos, dos mestrados. Eu sou mãe solo, trabalho em dois lugares e ainda coordeno o evento”. Mesmo diante desses desafios, ela enxerga crescimento: “A cada edição, o número de inscritos triplica. Este ano, conseguimos trazer artistas, escritores e pesquisadores negros, além de produção científica de alunos pretos, pardos e indígenas ”. Para ela, a Sagrai é resultado de um compromisso coletivo, ancorado em realidades compartilhadas: “A gente tem as mesmas dores, os mesmos medos, sofre os mesmos preconceitos. [...] A Sagrai é um reflexo da educação que a Udesc oferece e que a gente replica”.
Outros estudantes que participaram da organização e vivenciaram a Sagrai 2025 compartilham impressões que reafirmam sua importância como um espaço de construção coletiva, resistência e pertencimento. Para Nathannael Cutrim, estudante de Ciência e Tecnologia no Centro de Educação à Distância (CEAD) e integrante da comissão organizadora da Sagrai no CAV, a experiência foi marcada por realização e orgulho: “A sensação que eu tenho é de dever cumprido. A gente conseguiu fazer tudo aquilo que estava ao nosso alcance, entregou um evento lindo e que todas as pessoas gostaram.” Nathan nae l destaca a dimensão afetiva da Sagrai, visível nas interações entre os participantes: “Foi muito gratificante ver as pessoas se divertindo, conversando, trocando ideias e experiências. [...] É importante ter essas trocas de pessoas de outros centros, mas com vivências parecidas. Trazer isso para dentro do CAV foi algo muito importante e revolucionário”.
Thaysa Almeida, licenciada em História pelo Centro de Ciências Humanas e da Educação (FAED) e mulher indígena, reforça o papel da Sagrai como espaço de protagonismo dos povos originários e negros. Para ela, a presença física e intelectual dessas populações na organização tem significado profundo: “Não é só mais um evento que fala sobre pessoas negras e indígenas. É um evento que tem as nossas mãos físicas trabalhando para realizar tudo o que aconteceu. [...] Nós honramos os nossos ancestrais quando planejamos algo assim ”. Derick Andres, estudante de Ciência da Computação no Centro de Ciências Tecnológicas (CCT), também viveu a Sagrai como uma experiência de ruptura e aprendizado: “Estar em uma cidade desconhecida e ali escutar, aprender da minha negritude e das vivências dos irmãos indígenas foi algo inovador ”. Inspirado por um dos palestrantes do evento, ele resume: “A Sagrai é um ato de resistência”.
Para a acadêmica de História na FAED, Aisha Gabriela, a Sagrai representa um raro espaço de acolhimento dentro de um ambiente acadêmico muitas vezes excludente: “É um espaço de troca. A gente pode trocar acolhimento, saberes, afeto e entendimentos que muitas vezes o nosso cotidiano dentro de uma academia colonial, embranquecida, não nos permite”. Já o estudante de Engenharia de
Software pelo Centro de Educação Superior do Alto Vale do Itajaí (CEAVI), Yuji Faruk, compartilha como o evento teve impacto direto em seu senso de pertencimento: “Foi o primeiro momento dentro da faculdade em que eu me senti realmente pertencente a algo”. Ele ressalta a importância da Sagrai na valorização de saberes marginalizados: “Não só novos saberes, mas saberes que não estão pautados hoje dentro das academias. É um espaço para se acolher, se politizar e pensar novas formas de estar na universidade”.
Sagrai e o fortalecimento da diversidade na Udesc
A presença da Udesc na Sagrai reafirma o papel da universidade como agente de transformação social e cultural. Para a vice-reitora Clerilei Bier, que no momento representa a Proex, a participação institucional no evento é reflexo de um compromisso com o acolhimento e o fortalecimento das identidades que compõem a universidade. Segundo ela, "a Sagrai se constituiu num espaço de encontro e de escuta das vozes indígenas, dos pretos, dos pardos", além de ser "um momento de celebração cultural" que conecta os estudantes à ancestralidade e às lutas históricas desses grupos. Clerilei destaca que apoiar eventos como esse permite à universidade "amplificar as vozes plurais da comunidade acadêmica e contribuir para um ambiente mais justo e respeitoso com a diversidade".
O reitor José Fragalli também reforça o papel estratégico da Sagrai no projeto institucional da Udesc: "A Sagrai é o momento que a universidade tem para cumprir um dos seus deveres mais importantes: a inclusão". Para ele, movimentos como esse promovem reconhecimento, pertencimento e o encontro da universidade consigo mesma. “Faz com que a universidade se reconheça, e que as pessoas pretas, pardas e indígenas se sintam pertencentes”, afirma. Ao se engajar ativamente com a Sagrai, a Udesc evidencia que inclusão, escuta e ancestralidade não são apenas pautas pontuais, mas diretrizes que orientam a construção de uma universidade verdadeiramente pública e plural.
Assessoria de Comunicação da Udesc Lages
Jornalista Carla Torres
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