Para o pesquisador, o traço marcante dos fascismos é, na verdade, a recusa à alteridade
O historiador Francisco Carlos Teixeira participa da abertura da programação do curso de História na
Semana Integra Faed, na quarta-feira, 14 de outubro, com a palestra “Conflitos Globais Contemporâneos”. A atividade será realizada às 19h, no Auditório Tito Sena, no
Centro de Ciências Humanas e da Educação (Faed), da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), em Florianópolis.
Professor titular aposentado de História Moderna e Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Teixeira desenvolve pesquisas sobre sociedades agrárias, mudanças sociais, direitas, extremismos e fascismos. Sua trajetória acadêmica é marcada pela investigação de processos históricos e políticos que ajudam a compreender as transformações das sociedades contemporâneas.
Em 2014, o pesquisador recebeu o Prêmio Jabuti na categoria Melhor Livro do Ano pela obra Atlântico: A história de um Oceano, na qual aborda a importância histórica do oceano Atlântico e suas conexões entre povos, territórios e sociedades.
A palestra integra a programação da Semana Integra Faed, que reúne atividades acadêmicas e culturais voltadas à troca de conhecimentos e à integração da comunidade universitária.
O professor conversou com a equipe da Assessoria de Comunicação da Udesc Faed, concedendo a seguinte entrevista exclusiva:
Ascom Faed: Qual a intenção da discussão “Conflitos Globais Contemporâneos”, tema da aula do dia 14 na Udesc Faed?
Prof. Francisco: Nossa intenção é utilizar o fenômeno fascista e sua ressurgência, e fazer uma diferenciação entre os fascismos históricos, aqueles que existiram entre 1922 e 1945, e a ressurgência fascista.
Nós vamos, a partir desses dois fenômenos, que na verdade podem ser trabalhados de uma forma só, tentar ver uma metodologia da história do tempo presente, principalmente os enlaces entre o presente e o passado, que possam lançar luz e algum esclarecimento para além de simplesmente colocar o problema em termos não resolvidos, como por exemplo, o uso de neo ou pós ou ultra fascismo, ou então escamoteia a questão para o campo de conceitos por analogia do tipo populismo de direita, populismo radical, ou mesmo de totalitarismo.
Procuraremos então ver qual a relação e que tipo de relação se mantém entre o fenômeno histórico fascista e a sua ressurgência nos nossos dias.
Ascom Faed: O que caracteriza o fascismo moderno, na sua opinião?
Prof. Francisco: Há um traço de união fundamental entre o fenômeno do fascismo histórico e a ressurgência fascista nos nossos dias, que é a recusa radical a qualquer forma de alteridade, ou seja, de racismo, nesse sentido, nós queremos ir além da questão do anti-semitismo. A caracterização do fascismo como um regime político e uma forma de pensar, que é exclusivamente ou claramente anti-semita, não basta.
Claro que o fascismo anti-semita é brutal e letal nesse sentido, mas ele pode ser também, anti-negros, anti-ciganos, anti-nordestinos no Brasil, anti-mexicanos e porto-riquenhos nos Estados Unidos, anti-árabe na Itália ou na Espanha, na França e por aí vai.
Nesse sentido, o traço não é o anti-semitismo, o traço marcante dos fascismos é, na verdade, a recusa à alteridade, à diferença e o convívio com aquilo que é diverso.
Ascom Faed: Professor, o termo fascismo não parece muito utilizado de forma inadequada nos dias de hoje? Isso não é arriscado?
Prof. Francisco: Sem dúvida nenhuma, o uso coloquial de fascismo, a acusação de fascismo para aquele que está numa relação de oposição a você é totalmente indevido.
O fascismo precisa de um encontro ontológico de forças diversas, inclusive da nova língua fascista com mecanismos engrenagens de aniquilação em massa para poder ser chamado de fascismo. Há regimes políticos que são claramente autoritários e até mesmo brutais, adotam medidas de repressão como a tortura, mas que não são fascistas.
Nós temos que pensar que no espectro do Estado de exceção, já tá longamente estabelecido isso, existem as ditaduras, que podem ser de vários tipos, pessoal, oligárquica, militar, e existe o Estado bonapartista, no qual o poder executivo se emancipa, por um breve espaço de tempo, das determinações de classe, e temos o fascismo, que é o Estado de exceção por excelência em guerra aberta com as forças populares de cunho trabalhista.
Ascom Faed - Como a História pode contribuir para compreender os conflitos políticos e sociais que estamos vivendo no presente?
Prof. Francisco - A história não é um campo político, nem deve ser um campo político. Ela é, na verdade, uma disciplina acadêmica. Sendo uma disciplina acadêmica, ela é obrigada a manter o rigor do seu método de trabalho. Nesse sentido, não pode se confundir com a rapidez, com a efemeridade do campo da política. Agora, o problema central é que existe hoje uma corrente política que é muito importante, caracterizada pelo seu extremismo e que eu denomino de ressurgência fascista, que se caracteriza pelo negacionismo e pelo ocultamento de fatos muito importantes da história.
Desde o tráfico transatlântico de escravos até a existência do universo concentracionário, o universo dos campos de concentração sob o fascismo. Só atenção aqui, eu chamo de fascismos todas as formas de Estado caracterizados por fenômenos de negação absoluta da alteridade.
Então, na verdade, a história se torna política quando ela trabalha com a verdade, quando ela trabalha com o material bruto daquilo que Jean-Paul Sartre chamava de facticidade, o material puro da realidade, que se organiza através de fatos e do método acadêmico, um método rigoroso de trabalho do historiador, que implica na disposição aberta e citada de sua teoria, nos procedimentos experimentais, claramente colocados, na metodologia e que podem ambos, a teoria, a metodologia, junto com a facticidade, a realidade bruta dos fatos, serem testados e lidos pelos colegas.
Nós temos essa obrigação de ter uma circulação ampla e aberta dos nossos trabalhos. Nesse sentido, a história se transforma num campo de batalha político por trabalhar no desmonte, no desvelamento do negacionismo.
Ascom Faed - Em um cenário marcado pela circulação acelerada de informações e pela disputa de narrativas, quais são os desafios para quem pesquisa e ensina História do Tempo Presente?
Prof. Francisco - Veja bem, há uma diferença entre narrativas, um conceito que veio do campo da teoria literária e se tornou dominante no jornalismo, principalmente quando jornalistas falam e é bem-vindo que se escute todas as narrativas de todas as partes, nesse sentido, e que hoje exerce um papel de imperialismo epistemológico lógico na História.
Na História não existe essa batalha de narrativas. Existe aquilo que tem facticidade, e pode-se dizer facticidade é dos campos concentração, Auschwitz, Dachau, ou Bergen-Belsen, de fato existiram, estavam lá, tem pessoas que estavam lá.
Se os negacionistas, fascistas hoje dizem que Auschwitz era uma colônia de férias, não era um campo de concentração, nós temos desde a arqueologia de Auschwitz, com suas câmaras de gás e seus fornos crematórios, até o testemunho das vítimas que estavam lá dentro. Para isso é preciso fazer uma hermenêutica, uma análise rigorosa das fontes.
A narrativa da vítima, o material bruto da arqueologia, a disposição dos objetos, a coleção de óculos, sapatos amontoados aos milhares, são facticidade bruta que não pode ser desmentida por uma narrativa comprometida com o negacionismo. Nesse sentido, heuristicamente, o depoimento da vítima aponta para a verdade histórica. O depoimento do guarda SS do campo de concentração já não tem o mesmo valor heurístico que o depoimento da vítima. Isso já foi discutido e, sem dúvida nenhuma, a resposta de Carlo Ginzburg contra Hayden White, que considerava todas as narrativas válidas, não pode ter a mesma garantia no nosso campo.
Ascom Faed - Qual é o papel da universidade e especialmente da formação em História diante do crescimento dos extremismos e da dificuldade de diálogo com perspectivas diferentes?
Prof. Francisco - Cada vez mais que avança a questão dos extremismos, que avança mais essa ressurgência fascista, fica mais claro pra gente que o trabalho do historiador é cada vez mais difícil. Eu, particularmente, nesse mesmo momento, eu sofro esse processo no sentido que a minha pesquisa sobre a tortura, os torturadores durante a ditadura militar brasileira, me colocou numa situação de ser alvo de processos e pedidos de indenização para aquelas pessoas que querem negar e ocultar a tortura como maior eixo organizador da repressão durante a ditadura militar no Brasil. É cada vez mais difícil, não só a História mas também a Geografia frente aos mitos da terra plana, né? A Biologia que tem que enfrentar a questão junto com os alunos da reprodução humana ou da origem das espécies, a evolução, né? A Filosofia que questiona o eu e que por vezes coloca que o eu é uma consequência do ser. Ou seja, primeiro existe a própria condição humana, a existência que precede a essência. [...]
Eu não uso normalmente a expressão neofascista, pós-fascista, parafascista ou coisa parecida. Não acho que entre os fascismos históricos que aconteceram entre 1922 e 1945 e a ressurgência fascista nos nossos dias, haja algo verdadeiramente novo que possa caracterizar para além de uma cronologia um neofascismo.
No caso, por exemplo, de liberalismo que foi muito forte no final do século XIX, por volta de 1880 até 1929, havia, sem dúvida nenhuma, uma hegemonia liberal. Hoje, novamente, nós assistimos um avanço nas décadas de 1980 até o ano 2000, um grande avanço do liberalismo.
E as pessoas chamam esse novo avanço de neoliberalismo. Nesse caso, procede, né? Por quê? Porque o neoliberalismo incorporou algumas características que não existiam, por exemplo, no liberalismo no final do século XIX, como atuação do Estado no campo da economia. Como a existência de um banco central, por exemplo. Então, aí há sentido se falar em neoliberalismo.
No entanto, quando falamos de fascismo, o traço dominante dos fascismos históricos de 1922 a 1945 e hoje da ressurgência fascista, em especial depois de 2008 com a crise econômica mundial, é a negação da alteridade, a negação de qualquer alteridade, de alter, outro, alteridade, a existência do diferente, seja o diferente negro, índio, pobre, judeu, homossexual, como qualquer alteridade, qualquer diferença, é absolutamente colocada na forja do fascismo para ser eliminada.
Então, nesse sentido, não acho que exista um neofascismo. O fascismo continua com as suas características originais exterminacionistas.
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