Imóvel que integra a memória da universidade e de Florianópolis passou por mais de dois anos de trabalho de restauração
Casa Rosa é sede do IDCH e representa o embrião que deu origem à Udesc
Depois de mais de dois anos de trabalho, descobertas e cuidados, o casarão histórico também conhecido como casa rosa da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), sede do Instituto de Documentação e Investigação em Ciências Humanas (IDCH) vinculado ao
Centro de Ciências Humanas e da Educação (Faed), chega a uma nova etapa de sua história. A entrega da obra de restauro do prédio localizado em frente à Praça Getúlio Vargas, no Centro de Florianópolis, marca a recuperação de elementos arquitetônicos e artísticos do imóvel, além de possibilitar que o espaço volte a receber acervos, pesquisadores e a comunidade.
O processo revelou diferentes camadas de pintura nas paredes das salas do casarão, algumas delas preservadas desde o período mais antigo da edificação. Entre os achados estão pinturas florais, frisos decorativos, barrados em diferentes cores, pinturas que simulam madeira e mármore e papéis de parede com motivos ornamentais.
Para a restauradora e arquiteta Márcia Regina Escorteganha, responsável pelo trabalho, cada camada retirada durante as prospecções representava uma nova descoberta.
“À medida que vou desvendando camada a camada surgem sempre novidades e surpresas”, relata.
O trabalho exigiu precisão e paciência. Em diversos pontos, a remoção das camadas posteriores de tinta foi realizada com bisturi, de maneira semelhante a um procedimento cirúrgico. A ferramenta permitiu retirar, milímetro a milímetro, as pinturas mais recentes e revelar os pigmentos que estavam escondidos.
“É um procedimento quase cirúrgico, precisa muita concentração e habilidade para não danificar a camada original. Tem que ter foco, saber o que está fazendo para tirar camada a camada de repintura e revelar os traços originais da pintura”, explica Márcia.
Na avaliação da diretora-geral da Udesc Faed, professora Claudia Mortari, a entrega da casa simboliza a concretização de um trabalho coletivo construído ao longo de diferentes gestões, desde a elaboração do projeto de restauro. Para ela, a recuperação do espaço representa a preservação do patrimônio e do acervo, além da memória e da história da Udesc e de Florianópolis.
“Não é uma conquista da direção. É uma conquista da Faed, das diferentes gestões e de todos que trabalharam para tornar possível a reforma e o restauro da casa”, afirma.
Claudia destaca ainda que as marcas e gravuras preservadas nas paredes simbolizam os diferentes tempos e histórias que atravessam o imóvel e agora uma nova etapa com a organização do acervo e a reabertura do espaço à pesquisa e à comunidade.
Durante a gestão de Celso Carminati, a Udesc Faed iniciou o processo de recuperação e restauração do prédio histórico que abriga o IDCH, um projeto aguardado desde 2009. Em 2021, o prédio precisou ser interditado e os acervos e demais materiais de pesquisa foram removidos de forma provisória para outro endereço (na Rua Lauro Linhares, nº 2.055, Sala 602, Torre Flora, Bairro Trindade, em Florianópolis).
Pinturas revelam diferentes momentos da casa
O laudo técnico produzido durante as prospecções identificou pinturas murais em seis salas. Em alguns ambientes, foram encontradas até cinco camadas de pintura sobre o reboco de cal, evidenciando as diferentes transformações pelas quais o imóvel passou ao longo do tempo.
Na sala 1, por exemplo, foram identificados vestígios de uma composição floral formada por rosas vermelhas, lírios azuis e folhas em diferentes tons de verde, além de um fundo verde-claro decorado com espirais. Em outras salas apareceram pinturas em tons de azul, ocre e vermelho-bordô.
Na sala 5, uma das descobertas foi especialmente singular: fragmentos de papel de parede decorativo, com motivos coloridos e arabescos dourados, além de uma pintura que imitava mármore.
Parte dos vestígios estava em estado frágil e sob risco de desprendimento. Por isso, ainda durante as prospecções, foram realizadas intervenções emergenciais de fixação para evitar a perda dos fragmentos.
A proposta do restauro não foi reconstruir aquilo que já havia desaparecido, mas preservar os registros encontrados e permitir que as diferentes fases da casa continuassem visíveis.
“Eu não sou o artista da época. Sou apenas alguém que faz reviver as pinturas artísticas, que traz para o dia de hoje a valorização das artes de um tempo pretérito”, resume Márcia.
Uma casa que conta a história de Florianópolis
Além das pinturas, o próprio imóvel é considerado um importante documento da história urbana da capital catarinense. Para o arquiteto e professor Alberto Lohmann, coordenador de Engenharia de Projetos e Obras da Udesc, o casarão ajuda a compreender a ocupação de Florianópolis em diferentes períodos.
Segundo ele, a construção representa o modelo das antigas chácaras que se formavam nas áreas então afastadas do centro da cidade. A proximidade com a antiga Chácara de Espanha e o conjunto de imóveis históricos no entorno da Praça Getúlio Vargas reforçam a importância do local para a paisagem urbana.
“O que a gente tem aqui é um conjunto histórico importante para Florianópolis”, afirma.
O casarão também guarda uma relação direta com a trajetória da Udesc. O imóvel esteve ligado aos primeiros momentos da Escola Superior de Administração e Gerência (Esag) e da então Faculdade de Educação (Faed) e à presença da universidade na região central da cidade.
Para Lohmann, manter espaços como esse em uso é também uma forma de fortalecer o caráter público da universidade e preservar referências importantes da cidade.
Memória afetiva que atravessa gerações
A história do casarão extrapola documentos e paredes. Ela também permanece na memória de pessoas que acompanharam diferentes momentos da ocupação do imóvel.
É o caso de Rita de Cássia Silvano, de 63 anos, técnica da Udesc há 47 anos. A relação dela com o casarão começou muito antes de sua entrada na universidade.
Rita tinha apenas cinco anos quando passou a frequentar o local. Na época, o prédio abrigava a antiga Escola Superior de Administração e Gerência (Esag) antes de se tornar Centro de Ciências da Administração e Socioeconômicas, e seus pais eram responsáveis pelo restaurante que funcionava no porão.
“Eu nasci e cresci aqui. Eu brinquei por essa casa toda”, conta.
As lembranças permanecem vivas: a mãe preparando as refeições no porão, os estudantes da antiga escola circulando pelo imóvel e as salas ocupadas pela direção da instituição.
A relação afetiva é tamanha que Rita afirma ter adiado a aposentadoria porque ainda se sente ligada ao lugar.
“Eu amo, eu sou apaixonada por essa casa. Aqui é minha vida”, resume.
Um novo capítulo para o acervo da Udesc
Com o término do restauro, o casarão também se prepara para receber novamente acervos históricos. De acordo com a historiadora Cristiani Bereta, coordenadora do Instituto de Documentação e Investigação em Ciências Humanas (IDCH), a casa deverá ampliar significativamente sua capacidade de guarda e consulta de documentos.
O espaço reúne acervos relacionados à história de Santa Catarina, à trajetória de intelectuais, à cultura política e histórica e às redes de sociabilidade. Entre os conjuntos estão documentos ligados a personalidades como Walter Piazza, Salim Miguel e Eglê Malheiros, além de documentos provenientes de arquivos da penitenciária.
Para Cristiani, não é possível estabelecer uma hierarquia entre os acervos. A relevância depende das perguntas que cada pesquisador traz para o arquivo.
“O nosso acervo aqui é todo relevante. O pesquisador vai encontrar realmente, se ele estiver procurando”, explica.
A expectativa é que o acesso aos documentos possa começar mesmo antes da inauguração oficial, mediante contato com a equipe responsável, uma vez que parte do acervo já está no imóvel.
Preservar para manter a história viva
Para a historiadora Cristiani Bereta, acompanhar o restauro também significou vivenciar de perto a transformação do prédio. Entre as descobertas que mais a impressionaram estão justamente os elementos estéticos revelados durante o trabalho, como as pinturas originais e as diferentes camadas identificadas nas paredes.
“Tem camadas do século XIX e do século XX, desde 1870. É um trabalho técnico fantástico e que deixa a gente bastante emocionada”, conta.
A entrega da obra também representa a possibilidade de devolver à cidade um espaço que reúne arquitetura, memória institucional, patrimônio e histórias pessoais.
Para a arquiteta Márcia, que participou diretamente da recuperação das pinturas, o vínculo com o casarão não termina com a conclusão dos trabalhos. A restauradora pretende continuar acompanhando o estado de conservação do imóvel nos próximos anos.
“Essa casa tem história. Essa casa conta os caminhos, os trajetos das pessoas de Florianópolis, das pessoas de Desterro antigamente. Ela está na frente de uma praça maravilhosa que é um marco histórico. E aí tu tens essas casas, elas contam sobre a nossa cidade, dão identidade”, celebra.
Com a obra de restauro concluída, o casarão inicia uma nova fase: a de ajustes finais para que possa ser ocupado, pesquisado e vivido em breve novamente. A intenção é que o espaço seja aberto ao público até início do ano que vem.
Sobre o histórico da casa
A Casa Rosa, sede do IDCH, possui uma história que remonta ao século XIX. O primeiro registro do imóvel data de 1877, e, a partir de 1883, passou a pertencer à família Wendhausen, que promoveu uma ampla reforma na década de 1890, incorporando elementos ecléticos, neoclássicos e art nouveau.
O imóvel permaneceu ligado à família até 1933 e passou por outros proprietários até deixar de ser residência em 1965. A partir de então, sua trajetória esteve ligada à educação superior em Santa Catarina, abrigando a Escola Superior de Administração e Gerência (Esag) e posteriormente atividades da Udesc Faed.
Tombada como Patrimônio Histórico e Artístico de Florianópolis em 1986, a Casa Rosa tornou-se, em 2012, sede do Instituto de Documentação e Investigação em Ciências Humanas (IDCH/Faed/Udesc), reunindo importantes acervos históricos e culturais. Após problemas estruturais identificados em 2019, o imóvel passou por obras de restauração e, com a entrega da intervenção, o IDCH retornou à casa em 2026.
O valor da obra foi R$ 2.488.256,36. O investimento pretende fortalecer o espaço como local de preservação da memória e do patrimônio histórico de Santa Catarina.
Assessoria de Comunicação da Udesc Faed
Jornalista Magali Moser (MTB/SC 02353)
Telefone: (48) 3664 8512
E-mail: comunicacao.faed@udesc.br