Oficinas de artes e rodas de conversas têm como objetivo contribuir com a formação de quinze jovens moradoras do bairro Monte Cristo.
Estudantes do bairro Monte Cristo participam de oficina na Udesc. Foto: divulgação Life.
Apresentar alternativas de vida por meio da educação, da arte e da cultura, a fim de minimizar as desigualdades e a exclusão social. Esse é o propósito das atividades formativas oferecidas pelo
Laboratório Interdisciplinar de Formação de Educadores (Life) da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) a meninas em território de vulnerabilidade social do bairro Monte Cristo, em Florianópolis. A iniciativa é do Centro de Artes, Design e Moda (Ceart) da universidade e integra um projeto nacional com fomento do CNPq.
O projeto em questão é intitulado “Saberes: Desenvolvimento Integral das Meninas e Mulheres na Ciência”, que foi contemplado com recursos do governo federal por meio da chamada CNPq 31/2023 - Meninas nas Ciências Exatas, Engenharias e Computação. Proposto pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), prevê atividades em Londrina e em Florianópolis. A participação da Udesc acontece na capital catarinense, com aulas e oficinas artísticas voltadas à formação integral das jovens.
As ações desenvolvidas pelo Life têm como público 15 meninas que atualmente cursam o nono ano do Ensino Fundamental na Escola de Educação Básica América Dutra Machado, com idades entre 14 e 17 anos. A professora Luzia Renata Yamazaki, vinculada ao Departamento de Artes Visuais (DAV) e coordenadora do laboratório, explica que o projeto prevê o acompanhamento das adolescentes durante três ano s, vislumbrando uma possível entrada na universidade.
Docente de fotografia, é a partir dessa área que Luzia organiza aulas e outras atividades para o projeto desde fevereiro deste ano. Mas não só: com a colaboração de bolsistas e estudantes voluntárias, os encontros incluem também debates sobre filmes, oficinas de teatro e rodas de conversa. E a ideia é expandir ainda mais esse universo por meio de parcerias com outros Departamentos da Udesc. A professora também pretende levar esse trabalho para a sala de aula como atividade curricular de extensão nas disciplinas que ministra.
“O Life vai acompanhar as adolescentes nos próximos três anos. Nesse período, elas terão aulas de fotografia e participarão de debates a partir do projeto Cineclube Presença. Atualmente, o projeto busca parceria de outros departamentos do Ceart e centros da Udesc para ampliar ainda mais o acesso aos conhecimentos produzidos na universidade. Assim, quem sabe, possamos contribuir para a diminuição dos abismos existentes entre as universidades e a sociedade”, comenta Luzia Renata.
Até junho, já foram realizados cinco encontros na Udesc e na Escola América Dutra Machado, com periodicidade mensal. Muito além de ensinar técnicas, cada encontro é pensado para criar espaços de escuta, troca e fortalecimento entre as estudantes. As atividades que envolvem a análise de filmes, viabilizadas por meio do Cineclube Presença (projeto de extensão do Life), por exemplo, têm como objetivo abordar temas que atravessam as vidas das meninas. Para isso, as obras cuidadosamente selecionadas tratam de assuntos como violência de gênero, feminicídio e racismo estrutural.
“Essa vivência reforça a importância do cinema na escola como ferramenta de educação, sensibilização e transformação, capaz de abrir caminhos para diálogos profundos sobre questões sociais urgentes”, explica a professora Luzia Renata. Atividades de teatro e rodas de conversa também são momentos potentes para o desenvolvimento expressivo e de comunicação das adolescentes.
Com foco na possibilidade de sonhar
O primeiro encontro com as jovens que são público do projeto foi na própria escola. “Antes de trazê-las para a Udesc, eu e as bolsistas fomos até lá para conhecer o lugar delas e conversar a partir do território delas. Então a gente se apresentou e explicou o que poderíamos desenvolver”, relata a professora Luzia Renata Yamazaki. Cerca de 15 dias depois, em março, elas vieram até o Centro de Artes, Design e Moda participar de uma oficina de pinhole (técnica de fotografia produzida com câmeras artesanais).
Foi a ocasião em que muitas entraram pela primeira vez na Udesc e puderam vislumbrar possibilidades de futuro no ensino superior. “Para elas, é super importante enxergar que é possível estar nesse espaço. Nossa ideia é trabalhar para que elas tenham esse desejo… porque ninguém deseja o que não conhece”, contou a docente. Por isso, durante os encontros, a equipe do Life aproveita para falar sobre formas de ingresso e formas de permanência na universidade por meio dos subsídios estudantis.
Muitas não faziam ideia de que a Udesc era uma universidade estadual e gratuita, ou sequer sabiam como chegar até o campus. “São muitas fronteiras que estamos tentando quebrar”, comenta a docente. “Elas precisam ter esse contato com a universidade e com outros equipamentos culturais disponíveis na sociedade para que possam, para além de identificar os processos cotidianos de exclusão social, criar alternativas para escapar das armadilhas que a sociedade armou para elas”, complementa. Ver o mundo através das lentes também foi novidade: para a maioria, ao longo das oficinas, foi a primeira vez de segurar uma câmera fotográfica.
Ao andar pelo Centro de Artes, Design e Moda, um mural em particular chamou a atenção das meninas: na parede do Departamento de Música, três artistas catarinenses negras são retratadas na arte de autoria de Regina Elias (Soberana Ziza). Conforme Luzia Renata, ver essas mulheres negras em destaque por meio de uma arte produzida também por uma mulher negra fez com que essas jovens se sentissem representadas.
Abrindo portas para o futuro
Três das 15 estudantes da Escola de Educação Básica América Dutra Machado que participam das atividades oferecidas pelo Life – Emanuelly, Miriely e Lohana – compartilharam um pouco de suas perspectivas durante uma das visitas à Udesc, no dia 16 de junho. Foi através do projeto “Saberes” que elas conheceram a universidade.
Nas palavras de Emanuelly, 14 anos, a experiência tem sido mágica. “Meu sonho sempre foi entrar em uma universidade. E estar mais próxima desse sonho para mim é algo bem inovador, é bonito, me toca bastante, sabe? Tem significado para mim. A Udesc oferece vários cursos na área das artes e em todos os meus sonhos de carreiras que eu quero ter no futuro, todas envolvem arte. Então, para mim é bem mágico”, disse a jovem.
Ela conta que, incentivada pela família, tem uma relação muito forte com a música, com a literatura e com a escrita e agradece por estar fazendo parte do projeto. “Ele abriu muito a mente de muitas meninas. No bairro em que a gente vive, o pensamento das meninas é muito fechado. Ir para uma faculdade, ter um trabalho bom, estudar e passar para a universidade, fazer mestrado, enfim… elas não pensam sobre isso. Esse curso tá incentivando a gente a entrar para uma universidade”, relata.
“Eu particularmente não vejo a minha vida sem o estudo. Eu gosto muito de estudar”, complementa Emanuelly. Para outras meninas da idade dela, a estudante deixa um incentivo: “Para sempre buscarem o estudo. Ele não vai te tornar rico da noite para o dia, claramente. Mas ele vai abrir muitas portas, e através do estudo que a gente consegue ter um futuro muito mais promissor”, conclui.
Miriely, de 15 anos, conta que tem aproveitado bastante especialmente as oficinas de fotografia. “Eu achei legal de a gente começar a vir para cá [para a Udesc], porque eu também sempre tive muita vontade de conhecer a universidade, principalmente aqui, que tem coisas de design, moda, música. Achei a universidade muito linda”, disse.
Lohana, de 14 anos, também compartilha estar aprendendo com as atividades. Ela conta que sempre gostou de fotografia e que agora tem a oportunidade de utilizar uma câmera. “As atividades estão sendo boas, estou aprendendo muito. [...] Acho que o que eu mais quero conhecer aqui da universidade é o teatro. É porque até meu sonho é ser atriz”, compartilha a adolescente.
Impacto na formação acadêmica
Da mesma forma que a iniciativa gera impacto para a comunidade atendida, o mesmo se pode dizer para a formação acadêmica das estudantes de graduação envolvidas no projeto. A aluna Beatriz Araújo Galardini, do bacharelado em Artes Visuais, é uma delas. Para a estudante, essa é uma oportunidade valiosa de atuar na área da educação.
“O projeto amplia meu olhar sobre o papel da universidade para além da sala de aula tradicional, mostrando como a arte pode dialogar com comunidades reais e suas vivências. Isso fortalece meu compromisso enquanto futura educadora em promover espaços que valorizem a escuta ativa, a expressão individual e os saberes coletivos”, disse.
Ela atua como mediadora e curadora do Cineclube Presença, selecionando os filmes que são exibidos para as meninas e conduzindo os debates e rodas de conversa após as sessões. Também colabora nas atividades ligadas às artes visuais e educação, especialmente com a linguagem fotográfica, por meio de oficinas de fotografia e outras práticas.
“Tem sido uma experiência muito rica e transformadora. Estar com as meninas do Monte Cristo é uma troca constante de histórias, saberes e afetos. A cada encontro, percebo o quanto é potente criar espaços de escuta e criação onde elas podem se expressar com liberdade”, destaca Beatriz.
O projeto conta também com a participação de uma bolsista do curso de Licenciatura em Artes Cênicas, Escaley Alves. A proposta é justamente promover um diálogo entre diferentes linguagens artísticas, sempre com foco na escuta, na criação e no fortalecimento do conhecimento através de uma prática coletiva.
Conexão universidade-comunidade
Um dos tripés da universidade pública é a extensão, eixo fundamental para a troca dos conhecimentos produzidos nos diferentes territórios. “Se entendemos a universidade como espaço de transformação social, é fundamental nossa aproximação com os movimentos sociais, associações e lideranças comunitárias. Não vamos resolver problemas causados por falta de política pública, mas podemos promover trocas de experiências e formar estudantes comprometidos com questões sociais mais amplas”, destaca a professora Luzia Renata Yamazaki.
Desde 2020, a docente já desenvolvia trabalhos com a Associação de Mulheres do Monte Cristo (AMMO), e isso facilitou o diálogo para o desenvolvimento do projeto “Saberes”. A partir dessa experiência, ela destaca a importância de construir uma relação de confiança com as comunidades para efetivar o propósito da extensão universitária.
Núcleo de Comunicação Udesc Ceart
Jornalista Carolina Weber Dall'Agnese
E-mail: comunicacao.ceart@udesc.br
Telefone: +55 (48) 3664-8350