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Notícia

21/01/2026-16h41

Inovação na arte: pesquisa da Udesc usa dança para acolher pessoas em situação de deslocamento forçado

Projeto articula narrativas coerográficas e práticas corporais integrando arte e inclusão social

Foto: Gus Benke
A pesquisa de doutorado “Transicionando memórias através da composição sensório-motora”, desenvolvida por Patrícia Natividade Machado no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas (PPGAC) da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) propõe uma abordagem inovadora e sensível para acolher pessoas em situação de deslocamento forçado em um novo país.

Defendido em agosto de 2025 e orientado pela professora Bianca Scliar, o trabalho articula narrativas coreográficas e práticas corporais em uma proposta que integra arte, psicologia e inclusão social.

A metodologia se apoia em técnicas de escuta performativa e escultura social, criando uma perspectiva viva, inventiva e exploratória para o momento de chegada a um novo território. A abordagem questiona como a prática artística pode contribuir para redesenhar a própria definição de um povo, da chegada e da co-composição do sentido de pertencimento em movimento.

Do projeto nasceram cinco obras em formatos diversos, incluindo espetáculos, ações formativas e um áudio-performativo intitulado “Le guide de bienvenue: l’histoire s’ecrit maintenant”. Desenvolvido durante o estágio de Patrícia na Universidade de Concordia, no Canadá, o áudio foi criado de forma colaborativa com pessoas solicitantes de refúgio, em hotéis de transição na província do Quebec.

Áudio-performativo

Com duração de 10 a 15 minutos, o áudio-performativo convida o ouvinte a ações dentro dos próprios quartos dos hotéis de transição, como arrastar a cama, mover objetos ou deitar no chão. Ele também traz informações semelhantes às dos panfletos de serviços essenciais fornecidos aos refugiados que chegam em um novo país. Com tradução em seis idiomas – português, árabe, farsi, espanhol, inglês e francês –, a gravação foi feita com as vozes dos próprios participantes.

Como explica Bianca Scliar, o material pode ser entendido como uma “dança expandida”, em que a dança é criada por quem escuta, transformando pensamentos e ações físicas em uma proposição coreográfica. “O áudio presenteia e presentifica uma coreografia. A dança é tanto esse imaginário, quando o próprio pensamento que vai se movimentando na escuta, enquanto as vozes narram indicações de gestos, perspectivas, memórias”, explica a docente.

A escolha pelo formato de áudio surgiu devido a limitações impostas pelas autoridades migratórias, como a restrição das visitas aos quartos. Também não era permitido deixar nas moradias de transição os materiais dos workshops com enfoque criativo e artístico que ocorriam dentro do programa de recepção dos órgãos governamentais e o Instituto de Psiquiatria Social da Universidade McGill, responsável por acompanhar o projeto de acolhimento em sua íntegra. “O áudio permitia manter nossa presença ativa sem estarmos fisicamente lá. As pessoas podiam escutá-lo quando quisessem”, afirma Patrícia, responsável pela condução das atividades com os asilados.

Embora individual, o áudio incentiva o senso de coletividade entre os participantes, destacam as autoras. “Na época em que estávamos em campo, pedíamos para que as pessoas dessem feedback. Muitos relataram como aquilo trazia um senso de coletividade, mostrando quantas pessoas também estavam naquela situação ou já haviam passado por aquele quarto”, conta a pesquisadora. Desde sua estreia, em agosto de 2024, a obra integra o acervo das ações de acolhimento do Welcome Haven, programa comunitário vinculado à Divisão de Psiquiatria Social e Transcultural da Universidade McGill, em Montreal, no Canadá.

Reconhecimento

A pesquisa de Patrícia recebeu o 3º lugar no Prêmio Udesc de Inovação, realizado em 2025, na categoria Aluno/a de Pós-Graduação. Criada para valorizar a criatividade e o protagonismo da comunidade acadêmica, a premiação busca reconhecer agentes e práticas inovadoras desenvolvidas na Udesc com resultados concretos e impacto positivo no meio acadêmico, científico e social.

Sobre o reconhecimento de um trabalho artístico e social em um prêmio de inovação, Patrícia explica que artistas desenvolvem uma escuta única. “Acredito que nós, artistas, conseguimos realizar ações específicas dentro do campo porque desenvolvemos uma escuta que não é só narrativa, mas também corporal, uma escuta vibrátil”, defende.

O projeto também conquistou o prêmio Fellows Award na conferência anual da Dance Studies Association, realizada em Washington, nos Estados Unidos. O reconhecimento foi concedido a apenas quatro pesquisas de destaque mundial na área dos estudos da dança. As autoras destacam a relevância da premiação, como o reconhecimento da pesquisa em dança desenvolvida na Udesc e no PPGAC.

Dança como inovação

O trabalho de Patrícia é um exemplo da relevância dos estudos da dança e do papel dos profissionais da área que realizam pesquisas experimentais e investigativas com impacto social. “Estamos exportando um know-how, um jeito de fazer, que a Patrícia produziu enquanto embaixadora. Esse modo de trabalho precisa ser multiplicado, pois não é algo exclusivo a uma ação de criação espetacular, é uma pedagogia do movimento, integrada à urgência de ações de acolhimento no contexto atual”, diz Bianca.

Para a docente, é fundamental reconhecer a importância dos estudos da dança e do trabalho de profissionais capazes de dialogar com a sociedade. Ela reforça que integrar o fazer artístico às políticas públicas e às práticas sociais é um movimento extremamente positivo. “Não há aspectos negativos nesse processo, apenas benefícios, pois amplia o alcance da arte e contribui de forma efetiva para a transformação social”, destaca.


Reportagem por Pietra Simioni, estagiária de jornalismo, com revisão da jornalista Carolina Dall’Agnese.
Texto produzido para a 9° edição da revista Hallceart, que será lançada em breve.



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