Tecnologia desenvolvida em pesquisa com microalgas trata efluentes industriais e leva soluções para o setor produtivo
Alga&nzyme recebe o certificado de empresa-filha da Udesc. Foto: Arquivo
A pesquisa começou na universidade. Vieram os testes, os primeiros editais, a aproximação com ambientes de inovação e, aos poucos, uma ideia que antes cabia no laboratório começou a ganhar forma de negócio. Essa é a trajetória que está por trás da
Alga&nzyme,
startup reconhecida pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) como uma das primeiras empresas-filhas da instituição.
O certificado foi entregue durante o
Startup Summit 2026, realizado entre 26 e 28 de agosto, em Florianópolis. A empresa foi uma das quatro escolhidas para receber o primeiro reconhecimento da Udesc, entre os 28 empreendimentos já identificados e validados pela Secretaria de Inovação da Universidade.
Mais do que uma distinção, o reconhecimento ajuda a contar uma história que começou na formação acadêmica, passou pela pesquisa e por diferentes ambientes de inovação e hoje procura transformar conhecimento científico em uma solução para um problema concreto.
Criada pela pesquisadora mestre Thaís Agda Rodrigues da Cruz Primo, ao lado do orientador e co-fundador, diretor de pesquisa da Udesc Lages, professor doutor Everton Skoronski, e do co-fundador, coordenador de pesquisa da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (PROPPG) da Udesc, professor doutor do Departamento de Engenharia de Pesca e Ciências Biológicas na Udesc Laguna, Fábio de Farias Neves, a proposta da Alga&nzyme é utilizar microalgas no tratamento de efluentes industriais.
A tecnologia busca retirar nutrientes como nitrogênio e fósforo, que, em excesso, podem comprometer a qualidade de rios e lagos. O processo também possibilita o reaproveitamento da água tratada e a geração de biomassa com potencial para produção de biofertilizantes. “É uma solução que une Biotecnologia e Engenharia Ambiental, que estão na minha formação”, explica Thaís. O sistema foi pensado para trabalhar em fluxo contínuo, ampliando as possibilidades de aplicação em diferentes tipos e tamanhos de indústrias.
Atualmente, a empresa também avança no desenvolvimento tecnológico do tratamento terciário de efluentes por microalgas utilizando membranas e na valorização da biomassa gerada como bioinsumo agrícola. A ideia é aproveitar não apenas o potencial das microalgas no tratamento, mas também aquilo que é produzido durante o processo.
Uma pesquisa que ganhou novos caminhos
A relação de Thaís com a Udesc começou antes mesmo de a Alga&nzyme existir como negócio. Ela graduou-se em Engenharia de Pesca em 2017, no Centro de Educação Superior da Região Sul (Ceres), em Laguna, e chegou à Udesc Lages em 2020 para fazer o mestrado em Ciências Ambientais. Hoje, é doutoranda na área, no Centro de Ciências Agroveterinárias (CAV).
Durante esse percurso, o trabalho com microalgas ganhou força. A pesquisa, inicialmente acadêmica, passou a despertar outra possibilidade: transformar aquele conhecimento em uma solução que pudesse ser aplicada fora da universidade. Um dos primeiros passos nessa direção veio em 2022, com a contemplação no edital Centelha SC, segunda edição. A partir daí, a parceria com a Udesc ganhou ainda mais importância, especialmente pela possibilidade de acesso à infraestrutura necessária para realizar análises e avançar na validação da tecnologia.
“A Udesc abriu suas portas para a empresa logo no início, que muitas vezes é o momento mais crítico do empreendimento”, conta Thaís. Segundo a pesquisadora, o apoio e o convênio com a Universidade tornaram possível desenvolver a validação inicial do negócio, em uma fase em que a estrutura de laboratório seria um dos principais desafios.
A parceria continua até hoje. A Alga&nzyme mantém uma estrutura instalada junto à estação de tratamento de efluentes de uma indústria avícola, onde também são desenvolvidas atividades que contribuem para a formação de estudantes do campus de Lages. O espaço já esteve ligado a trabalhos de conclusão de curso, dissertações de mestrado e estágios obrigatórios de alunos de Engenharia Ambiental e Sanitária.
Do laboratório ao ambiente de inovação
O caminho da Alga&nzyme continuou com a participação em programas voltados ao empreendedorismo. Neste ano, a
startup conquistou o terceiro lugar no programa nacional Empreendedoras Tech, que recebeu mais de mil propostas e selecionou 100 mulheres para uma jornada de quatro meses, com encontros e mentorias voltados ao desenvolvimento dos negócios.
Na etapa final, realizada em Brasília, seis iniciativas de Santa Catarina chegaram à disputa. A Alga&nzyme foi a única do Estado a receber uma premiação e levou R$ 15 mil. Mais do que o resultado, a experiência ajudou Thaís a apresentar a pesquisa para além do ambiente acadêmico, pensar no negócio e compreender os caminhos necessários para que uma tecnologia desenvolvida na universidade possa chegar ao mercado.
Em Lages, o Orion Parque Tecnológico passou a fazer parte dessa trajetória. A
startup participa do Programa Startup SC, do Sebrae/SC, por meio da incubadora Épsilon, e integra a Rede MidiHub, formada por incubadoras distribuídas por Santa Catarina e voltada ao desenvolvimento de negócios de base tecnológica.
Neste ano, a empresa também foi uma das 20 selecionadas pelo edital Acelera Startup SC – 6ª Edição, da Fapesc, sendo a única representante da região serrana catarinense entre as contempladas. O recurso de subvenção econômica será utilizado para avançar no desenvolvimento tecnológico do tratamento terciário de efluentes por microalgas utilizando membranas e na valorização da biomassa gerada como bioinsumo agrícola.
Universidade e empreendedorismo
Esta passagem da pesquisa para a aplicação que está no centro do conceito de empresa-filha adotado pela Udesc. São consideradas empresas-filhas aquelas criadas por estudantes, egressos, professores ou técnicos a partir de conhecimentos desenvolvidos na Universidade, aproximando a produção acadêmica de novos produtos, serviços e negócios.
Durante o
Startup Summit 2026, a Alga&nzyme dividiu esse espaço com outra iniciativa ligada à Udesc Lages. No Palco 8 do evento, o professor associado do Departamento de Engenharia Florestal e do Programa de Pós-graduação em Engenharia Florestal da Udesc Lages e integrante do Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT) da Udesc, Rodrigo Terezo, apresentou a palestra “Academia + Inovação: a engrenagem que transforma ideias em startups”, discutindo justamente a aproximação entre pesquisa, inovação e empreendedorismo.
A discussão também encontrou continuidade em Lages nessa quarta-feira, 2. O Orion Parque Tecnológico recebeu uma programação dedicada à aproximação entre academia, indústria, startups, empresas e oportunidades de fomento, em uma tarde organizada em três encontros.
O primeiro, “Da Academia à Indústria: Cocriando Soluções”, tratou da conexão entre pesquisa, conhecimento e mercado, com foco em inovação e transferência de tecnologia. Na sequência, o “Ignition Startup” aproximou
startups de oportunidades, investidores e linhas de fomento, enquanto o encontro “Fomento: Do Recurso à Transformação” encerrou a programação abordando caminhos para transformar ideias e necessidades em projetos com potencial de captação.
A programação foi realizada pelo Orion Parque Tecnológico, SCTI – Governo de Santa Catarina, SC Mais Inovação e Unesc, com apoio da Uniplac. A movimentação reforça um ambiente em que diferentes atores podem se encontrar e em que iniciativas como a Alga&nzyme encontram oportunidades para avançar.
Um ambiente que ajuda ideias a crescer
A Alga&nzyme faz parte de um ecossistema que reúne outras empresas e projetos ligados à ciência e à tecnologia. Entre as iniciativas com conexões com a Udesc Lages estão Plant Colab, Quiron Digital, ECx, Scienco Biotech, YCorps e PetGEN, que atuam em áreas como agricultura, produção florestal, meio ambiente, biotecnologia e saúde animal.
A presença dessas empresas ajuda a dimensionar o ambiente em que a startup vem construindo sua trajetória, mas a história da Alga&nzyme tem um caminho próprio. Esta é a história de uma pesquisa que nasceu na Udesc Lages, encontrou apoio para ser validada, passou por programas de empreendedorismo e agora busca novas possibilidades de aplicação.
O reconhecimento como empresa-filha marca mais uma etapa desse percurso. Para Thaís, a certificação também representa a continuidade de uma parceria que começou quando a empresa ainda dava os primeiros passos e que segue apoiando o desenvolvimento científico e tecnológico da iniciativa.
A pesquisa, no entanto, continua. A Alga&nzyme busca transformar microalgas em uma solução capaz de tratar efluentes, possibilitar o reaproveitamento da água e dar novo destino à biomassa gerada no processo. A ideia que nasceu na universidade encontra, passo a passo, espaço também fora dela.
Assessoria de Comunicação da Udesc Lages
Jornalista Carla Simone Doyle Torres
E-mail: comunicacao.cav@udesc.br
Telefone: (49) 3289-9130