PROJETOS EM ANDAMENTO
As madres bas-bleu: religião, política e moral na ditadura e redemocratização em perspectiva transnacional (Brasil, 1959-1988)
As relações entre a Igreja Católica e ditadura militar no Brasil contam, atualmente, com uma extensa e consistente bibliografia. Esta tematiza tanto a colaboração a um ideário anticomunista que serviu como justificativa ao golpe militar perpetrado em 1964, quanto o engajamento em movimentos de resistência e oposição. Estes ganharam particular visibilidade a partir de 1968, através da luta pelos direitos humanos e contra a prática da tortura e da violência de Estado. Nesta bibliografia, encontramos majoritariamente referências ao envolvimento de bispos, padres seculares e religiosos em ações que ensejam reflexões sobre as relações entre política e religião. Menos numerosos são os trabalhos dedicados às ações de religiosas neste mesmo contexto. A partir de investigações previamente realizadas, constatamos que estas ocorreram e foram relevantes, ainda que menos enfatizadas. A pouca visibilidade pode ser compreendida pelo lugar social outorgado às religiosas na/pela Igreja, o qual pode ser problematizado a partir da categoria de gênero, conforme já indicado por Uta Ranke Heinemann e Ana Maria Bidegain. Para além desta questão, registros de participação de religiosas em ações de resistência e oposição ao regime militar que podem ser observadas: no engajamento em movimentos sociais, particularmente junto às comunidades eclesiais de base - CEBs -, em passeatas e manifestações relativas ao custo de vida e aos enfrentamentos concernentes à terra e causas indígenas no norte e centro-oeste brasileiro; no trabalho de divulgação das torturas cometidas pelo regime; no acolhimento de perseguidos políticos e familiares; na participação em mobilizações públicas contra a tortura - notadamente entre 1966 e 1968 - e no engajamento progressista em escolas dirigidas por congregações religiosas femininas. Este projeto tem por intenção investigar a atuação de religiosas católicas nestes vários âmbitos, destacando a relevância de vínculos transnacionais, observáveis tanto no que tange ao campo das ideias quanto ao trânsito de pessoas e estabelecimento de congregações religiosas estrangeiras no território nacional.
Coordenadora: Caroline Jaques Cubas
Centro de Informações do Exército: o cérebro e a mola do aparato repressivo da ditadura militar
Esse projeto propõe reunir, sistematizar e analisar as informações disponíveis a respeito do Centro de Informações do Exército (CIE), no intuito de compreender as razões que levaram à sua criação, em 1967, suas funções na arquitetura repressiva, a trajetória política e militar de seus comandantes e agentes mais conhecidos e as principais operações nas quais esteve envolvida. A seguinte indagação orienta essa pesquisa: qual terá sido a função dessa peça dentro da engrenagem repressiva e em que medida atuou em complementação ou em competição com os demais componentes que a constituíram? Problematiza-se a hipótese de que o CIE não se limitou a centralizar a repressão política: constituiu um núcleo de agentes especializados em informações que operaram com ampla mobilidade em diversos pontos do território nacional, em articulação com outros órgãos repressivos. Em determinadas situações, porém, gerou conflitos e animosidades com esses órgãos, em razão de superposição de funções ou de área de atuação. Processo: 304079/2022-7.
Coordenadora: Mariana Joffily
Democracia, justiça e autoritarismo no tempo presente: limites políticos e sociais da construção democrática brasileira sob variadas escalas de análise (1960-2016)
Este projeto visa integrar os objetos de investigação que se desenvolvem no âmbito do Grupo de Pesquisa Memória e Identidade. Está estruturado em eixos de investigação que abarcam a apropriação social de valores democráticos no Brasil, a partir da contestação a aparatos autoritários e a circulação do ideário dos direitos humanos, observados também na escala de Santa Catarina. O recorte histórico está demarcado entre 1960 até 2016, período no qual tanto foram estruturados mecanismos de repressão política e social quanto ocorreram mobilizações, contestações e iniciativas de construção democrática na sociedade brasileira. Cabe perceber esse processo em distintas escalas de observação, regionais, nacionais e internacionais, de modo a compreender as tensões entre as políticas estatais e aquelas que envolveram a promoção da cidadania e dos direitos humanos. A problemática desta proposta pode ser dividida, portanto, nos seguintes eixos de pesquisa: 1) a constituição de estruturas autoritárias pelo Estado brasileiro, o que ampliou a repressão política no período que se seguiu ao golpe de Estado de 1964; 2) as ações políticas de contestação e crítica ética ao autoritarismo que se difundiram em diferentes âmbitos, particularmente o da religiosidade; 3) as demandas e mobilizações de segmentos vulneráveis da população e que ensejaram políticas sociais e práticas judiciárias com foco, em especial, na infância e na juventude, favorecendo a difusão do ideário dos direitos humanos, particularmente em Santa Catarina; 4) as implicações em múltiplas escalas, locais, nacionais e transnacionais, do processo de transição política que envolveu a adoção de novos repertórios de ação coletiva por movimentos sociais e organizações partidárias; 5) a renovação da linguagem política e da crítica social em diferentes campos, o que inclui questionamentos culturais e artísticos nos meios de comunicação, particularmente no jornalismo e no humor político. Um dos alvos prioritários do projeto é a articulação entre os objetivos do grupo de pesquisa e o aprimoramento das discussões que envolvem o domínio da História do Tempo Presente em Santa Catarina, domínio historiográfico inovador que é a área de concentração do Programa de Pós-Graduação em História (PPGH) da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Diante disso, visa também assegurar recursos para as atividades que se desenvolvem no âmbito do Laboratório de Estudos da Contemporaneidade (LEC) e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF), situados no Centro de Ciências Humanas e da Educação (FAED) da UDESC, bem como para a revista acadêmica Tempo e Argumento, importante publicação da área de História em âmbito nacional e que visibiliza o trabalho realizado pelo PPGH da UDESC. O projeto visa construir conhecimento para cidadãos interessados, movimentos sociais, ativistas de direitos humanos e de políticas sociais, além daqueles interessados na história política recente do país. Processos históricos que envolveram a imposição da ditadura militar e a transição para a chamada Nova República, com seus desdobramentos posteriores, marcam de maneira indelével nosso presente e, assim, nossa atual experiência democrática, com impacto em diferentes escalas de observação e análise, o que inclui avaliar o processo no âmbito regional, em Santa Catarina. As exclusões de amplas camadas da população, particularmente setores vulneráveis, das promessas do sistema democrático são elementos inarredáveis da paisagem social e política brasileira contemporânea. Isso envolveu ainda a montagem de estruturas repressivas que atingiram grupos políticos e sociais engajados na disseminação de valores democráticos no Brasil.
Coordenadores: Reinaldo Lindolfo Lohn; Caroline Jaques Cubas; Mariana Joffily; Emerson César de Campos; Silvia Maria Fávero Arend (Labgef).
O Comunista Comeu o Jacaré!: Humor brasileiro no Tempo Presente na obra de Luis Fernando Veríssimo
O presente projeto de pesquisa é apresentado considerando que no campo da História do Tempo Presente no Brasil se verifica a ausência de estudos que se concentrem na interface entre as diferentes linguagens da história cultural e política e da literatura brasileira, em especial a que se vale do humor. Nesse sentido, pretendo investigar as relações entre política e humor na obra de Luis Fernando Veríssimo no Tempo Presente brasileiro e analisar a relação entre as violências da ditadura e a elaboração humorística produzida pelo citado. Nessa análise será explorado o humor como dispositivo de contestação e desestabilização políticas, examinando-se as diferentes manifestações de humor no tempo presente brasileiro expressas nas crônicas, tirinhas e colunas nos jornais produzidas por Luis Fernando Veríssimo e problematizando-se as suas estratégias narrativas e as que o autor utilizou para contornar a censura. Para tanto, será feita a escolha dos textos do autor publicados em diferentes suportes, classificando os temas, períodos e modalidades literárias que carreguem manifestações humorísticas relacionando-os com os acontecimentos e personagens que constituem parte considerável da história do nosso tempo presente. Espero alcançar heuristicamente uma compreensão elaborada sobre os usos do humor em nossa história do tempo na obra de Luis Fernando Veríssimo.
Coordenador: Emerson César de Campos
Transição política e terceiro-mundismo: conexões entre Brasil e Portugal (1974-1985)
O projeto de pesquisa desdobra-se de investigação anterior, também financiada pelo CNPq, e visa aprofundar o estudo das influências internacionais sobre a transição política no Brasil ao final da última ditadura militar (1964-1985). Toma por base as conexões entre duas experiências históricas simultâneas: o início de uma transição política no Brasil na segunda metade da década de 1970 e os desdobramentos da chamada Revolução dos Cravos em Portugal (1974), despertando discussões sobre a democratização, a descolonização e a inserção de ambos os países no então chamado Terceiro Mundo. O objeto de estudo é a presença de um repertório político terceiro-mundista entre opositores à ditadura brasileira, na segunda metade da década de 1970, percebido por meio da imprensa brasileira e portuguesa, sob os seguintes focos: 1) compreender o emprego do repertório terceiro mundista na mobilização de ativismos políticos em oposição à ditadura militar em um espaço editorial transnacional constituído em Portugal e no Brasil entre 1974 e 1985; 2) abordar as movimentações de opositores à ditadura brasileira empenhadas na reorganização partidária que então se projetava no país e que se concretizou a partir de 1979, com desdobramentos até 1985. A investigação contribuirá para a análise das dinâmicas de transferências percebidas em âmbito transnacional e sua importância para compreender as disputas em torno da transição política, com impacto no tempo presente. Diferentes fontes históricas serão mobilizadas, a começar pela imprensa portuguesa, na qual frentes de oposição brasileiras discutiram projetos de democratização. Títulos da imprensa brasileira também serão investigados, em especial a revista Cadernos do Terceiro Mundo. A documentação arquivística compreende tanto as ações de vigilância do regime autoritário brasileiro sobre seus opositores quanto a produzida nas esferas diplomáticas portuguesas. Financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) por meio de Bolsa de Produtividade em Pesquisa (Pq) nível C. Termo de outorga: 305022/2025-3.
Coordenador: Reinaldo Lindolfo Lohn
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