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Notícia

02/02/2026-16h53

Udesc+Ciência: as relações entre o universo carnavalesco e as artes cênicas

Carnaval brasileiro é inseparável da cultura negra, argumenta professora da Udesc Ceart

As primeiras manifestações iniciam nas festas dionisíacas em homenagem ao deus do vinho, ainda na Grécia Antiga. Em Roma, as saturnálias são palco de banquetes públicos, folia e troca de presentes em celebração ao deus Saturno. É o “mundo do avesso”, denomina o filósofo da linguagem Mikhail Bakhtin, no contexto da Idade Média. A festa que conquistou o mundo tem raízes na Antiguidade e é predominantemente europeia – mas, no Brasil, ganha a forma atual somente com a vinda de pessoas escravizadas. 

O universo carnavalesco como se conhece hoje é uma herança direta da cultura africana, afirma Fátima Costa de Lima, professora do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas (PPGAC), do Centro de Artes, Design e Moda (Ceart) na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). E este universo é fortemente influenciado por elementos cênicos. 

Pesquisadora do tema há mais de três décadas, Fátima aponta que o carnaval e o teatro – especialmente o teatro negro - compartilham de características comuns.

“Fantasias, muitas vezes, são figurinos de teatro. Você vê cenas em carros alegóricos, vê dança na comissão de frente. Tudo isso é parte das artes cênicas”, explica a professora. 

Já o teatro negro – movimento artístico e social fundado na década de 1940 pelo dramaturgo Abdias do Nascimento – resgata elementos carnavalescos que o distinguem de outros gêneros. 

“Peças teatrais de tradição europeia até remetem à gestualidade e à música”, avalia a professora. “Mas o teatro negro – feito por pessoas negras, com temática que majoritariamente interessa à população negra - é outro universo. Tem dança, tem canto e tem tambor. Não só nos palcos, mas também nas ruas”. 

Elementos históricos

Pesquisas historiográficas situam a chegada do carnaval ao Brasil pela corte portuguesa. As manifestações no início do século 19, permeadas por carros alegóricos, festejavam os reis – sobretudo seus filhos, os infantes, dos quais se comemoravam nascimentos e batizados.

Em contraste, havia uma forma de manifestação cultural menos ligada às elites da época. Denominada como entrudo, era popular entre diversos grupos sociais, incluindo negros e escravizados. Consistia em brincadeiras de rua envolvendo arremesso de limões de cheiro, com o objetivo de molhar quem participasse da folia.

O primeiro registro histórico do entrudo na cidade de Desterro, antigo nome dado a Florianópolis, é de 1832, em ofício remetido pela Câmara Municipal ao Presidente da Província solicitando sua proibição. Jornais da época descreveram os festejos como incivilizados e atrasados.

O entrudo gradualmente perdeu espaço até o final do século 19, tanto pela repressão policial quanto pelo crescimento dos desfiles e bailes das sociedades carnavalescas.   

Na virada para o século 20, o carnaval brasileiro se torna samba, com início no Rio de Janeiro. Os festejos, antes restritos às Grandes Sociedades, grupos formados por políticos e intelectuais da época, ganham a participação de moradores das favelas.

“Pessoas que vieram da Bahia e das plantations [latifúndios monocultores] do interior trouxeram o canto, o tambor e os pontos de terreno, aproximando o carnavalesco da religiosidade”, explica Fátima. “Isso virou o samba”. 

Fundadas nos anos 1920, Portela e Estação Primeira de Mangueira são as duas escolas de samba mais antigas do Brasil que ainda estão em atividade. Em Florianópolis, a pioneira é a Protegidos da Princesa, de 1948, seguida da Embaixada Copa Lord, de 1955.  

Os primeiros desfiles ocorrem na década de 1930 e são uma invenção genuinamente brasileira, afirma a professora. O espetáculo elevou a complexidade das alegorias carnavalescas europeias ao adicionar bateria, passistas e enredo temático, entre outros elementos. 

As escolas, contudo, são apenas uma das expressões do carnaval brasileiro. Frevo, tribos e blocos afro são outros exemplos que demonstram a riqueza e a diversidade das folias no país.

“A cultura de origem africana moldou o nosso carnaval”, avalia a professora. “Ela atualizou e mantém viva a festa no mundo inteiro”. 

Africatarina

As conexões entre elementos do teatro e do carnaval fazem parte da própria trajetória de Fátima. Além do trabalho docente, cofundou, junto com o músico Edinho Roldan, o bloco de samba-reggae Africatarina, em 2001. Ele nasce no interior de um projeto de extensão vinculado ao Departamento de Artes Cênicas da Udesc. “Nossa primeira reunião foi na sala de cenografia do Ceart”, recorda.

Em sua década inicial, o Africatarina tinha como objetivo promover o ensino, pesquisa e divulgação das culturas afro-brasileiras. Ofertou gratuitamente oficinas de arte para crianças e adolescentes moradores de comunidades em Florianópolis.

A segunda fase, desde 2017, ganha as ruas e firma o Africatarina como bloco afro de carnaval – ao lado de nomes como Arrasta Ilha, Baque Mulher e Cores de Aidê. Atualmente, o projeto reúne cerca de 250 integrantes que trabalham o ano inteiro em oficinas permanentes de percussão e dança e na realização de desfiles. 

É a partir do Africatarina que nasce o Coletivo Negras Experimentações Grupo de Artes (Nega), primeiro e único grupo de teatro negro de Santa Catarina até então. Orginalmente criado por Fátima como projeto de extensão na Udesc, o coletivo completou 15 anos em dezembro do ano passado. Organiza-se agora de forma independente e horizontal. 

Revitalizar o carnaval

Além de pesquisar e viver o carnaval, Fátima mantém contato com grupos que tentam revitalizar a folia nos municípios do interior de Santa Catarina. Blocos e associações procuram o Africatarina para trocar experiências e ensaiar um retorno às ruas. 

“As pessoas costumam não acreditar, mas as coisas acabam”, assinala a professora, em referência a cidades que costumavam ter carnavais de maior movimento há cerca de dez anos, como Criciúma. 

Mesmo munidos das licenças necessárias, agremiações relatam dificuldade para obter autorização junto ao poder público e festejar nas ruas, afirma Fátima. “Eles querem dançar, cantar e ir para as ruas porque isso já existiu anteriormente”.

A cidade de Joaçaba, no oeste do estado, é exceção. Lá, os desfiles das escolas de samba são uma tradição desde a década de 1940, surgindo antes mesmo da capital catarinense. 

A tradição deve-se ao intercâmbio cultural com o Rio de Janeiro, explica a professora. Trabalhadores do setor ferroviário traziam revistas sobre o carnaval carioca - a circulação da mídia impressa, por sua vez, coloca a população local em contato com o universo artístico. 

Para o carnaval de 2026, Fátima sinaliza que os temas das escolas de samba do Rio de Janeiro devem apostar na negritude e nas biografias de personalidades, como Rita Lee, Conceição Evaristo e Ney Matogrosso. Em Florianópolis, o Africatarina celebrará o Partido dos Panteras Negras para a Autodefesa com o enredo “Preto é Beleza. Preto é Poder. Preto é Pantera”. Nas palavras da docente, a expectativa, nas palavras da docente é apenas uma: “o Brasil inteiro nas ruas. Isso é lei”. 

Contate a pesquisadora

Fátima Costa de Lima é professora da Udesc no Departamento de Artes Cênicas e no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas do Centro de Artes, Design e Moda. Possui doutorado em História Cultural pela Universidade Federal de Santa Catarina. Atua nos seguintes temas: espaço e imagem do carnaval; alegorias; teatro negro; movimentos sociais.
E-mail: fatima.lima@udesc.br

Este texto integra o projeto Udesc+Ciência, produzido pela Secretaria de Comunicação da Udesc com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc). 


Assessoria de Comunicação da Udesc 
Jornalista Dairan Paul 
E-mail: comunicacao@udesc.br 
Telefone: (48) 3664- 8006   
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  • Imagem 10
  • A professora Fátima Costa de Lima, da Udesc Ceart, é referência nos estudos historiográficos sobre carnaval. Créditos: Dairan Paul
  • O bloco Africatarina toma as ruas de Florianópolis. Créditos: Elaine Sallas
  • Apresentação do bloco Africatarina. Créditos: Mhirley Lopes
  • Apresentação do bloco Africatarina. Créditos: Mhirley Lopes
  • Apresentação do bloco Africatarina. Créditos: Mhirley Lopes
  • Integrantes do Coletivo Nega, primeira companhia de teatro negro de Santa Catarina. Créditos: Trindade.
  • O Coletivo Nega é a primeira companhia de teatro negro em Santa Catarina. Créditos: Trindade.
 
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