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Notícia

14/01/2026-15h09

Udesc+Ciência: Biscoito de guabiroba regula glicemia e diminui colesterol

Fórmula desenvolvida por pesquisa da Udesc Oeste já pode ser adaptada ao paladar humano

Um pequeno biscoito no formato de osso é capaz de prevenir doenças cardiovasculares e reduzir o colesterol. Produzido à base de extrato das folhas de guabiroba-amarela-da-mata (Campomanesia xanthocarpa), planta nativa da região Sul do país, o alimento foi testado com sucesso em cães da raça beagle hospedados na Fazenda Experimental da Udesc Oeste, no município de Guatambu.

Agora, a fórmula alimentícia está pronta para ser adaptada ao paladar humano.

Os benefícios surpreenderam até mesmo a professora responsável pelo estudo, Aniela Kempka, vinculada ao Departamento de Engenharia de Alimentos e Engenharia Química da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), no campus do Centro de Educação Superior do Oeste (CEO), em Pinhalzinho (SC).

A alteração nos níveis de colesterol, por exemplo, não era um resultado esperado. “Ciclos bioquímicos são muito complexos”, destaca a pesquisadora. Por meio de testes computacionais, a equipe agora investiga quais mecanismos associados ao extrato das folhas estão por trás da redução.

Já o controle glicêmico provavelmente ocorre devido às propriedades antioxidantes da guabiroba - característica já verificada pela literatura científica, ressalta Aniela. Contudo, o efeito não é imediato. 

Esse “atraso” resulta da matriz alimentar complexa do biscoito, cuja composição leva outros ingredientes que interagem com o extrato das folhas durante a absorção. Por isso, as modulações na frutosamina, marcador que reflete o nível médio de açúcar no sangue, são graduais, e foram percebidas nos cães após 20 dias de ingestão diária do alimento.

Também foram verificados efeitos positivos na modulação metabólica dos animais: o aumento de albumina, proteína produzida pelo fígado, previne inchaço, preserva a função hepática do corpo e o equilíbrio proteico. A fórmula passou ainda por testes de segurança até alcançar parâmetros estáveis e ausentes de toxicidade. 

No atual estado, o biscoito já pode ser adaptado ao consumo humano por quem tiver interesse - de pequenos produtores a empresas da indústria alimentícia.

“Nossa pesquisa serve de base para quem quer desenvolver alimentos funcionais”, afirma a professora. “A nova formulação pode levar em conta atrativos sensoriais como sabor, odor e visual”. 

Guabiroba: símbolo da biodiversidade brasileira 

Descrita com sabor adocicado, leve toque azedo e polpa carnosa, a guabiroba é um fruto nativo que espelha a biodiversidade do Brasil. Há diversas espécies: no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, a amarela-da-mata (Campomanesia xanthocarpa) frutifica de outubro a janeiro; no Centro-Oeste, a verde-lisa (Campomanesia adamantium) simboliza o cerrado e a Mata Atlântica; no Norte, a rara espécie da Amazônia (Campomanesia lineatifolia) é utilizada como planta medicinal no tratamento de problemas estomacais.

Etapas da pesquisa

Para chegar até a formulação do biscoito, o estudo utilizou a infusão a quente com o objetivo de extrair as folhas da guabiroba. Segundo a professora Aniela, o método, considerado simples, foi escolhido para que qualquer pessoa pudesse realizá-lo em casa. Basta secar o material (no sol ou no forno, em temperatura baixa) e extraí-lo em diferentes tempos com água quente. 

Mas, atenção: é preciso utilizar um nível apropriado de concentração do extrato para que ele não contenha a toxicidade que é própria da planta. 

A equipe baseou-se em estudos científicos anteriores até definir o parâmetro correto e introduzi-lo nos biscoitos. Todo o processo de produção levou em torno de dois dias e foi feito no Laboratório de Análise Sensorial, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia de Alimentos (PPGCTA) da Udesc Oeste. 

Nesta etapa trabalharam duas alunas de pós-graduação sob orientação da professora Aniela, cada uma com pesquisas próprias sobre a guabiroba. 

A dissertação de mestrado de Cristiane Tremea, produzida no PPGCTA, estudou o potencial de controle glicêmico dos extratos. E a tese de doutorado de Vanessa Ruana Ferreira da Silva, que será defendida em fevereiro de 2026 no Programa Multicêntrico de Pós-Graduação em Bioquímica e Biologia Molecular (PMBqBM), vinculado ao Centro de Ciências Agroveterinárias (CAV) da Udesc em Lages, avalia de forma mais geral diversos aspectos relativos à guabiroba, como o perfil fitoquímico e as atividades biológicas.

A fase de testes com animais foi realizada em parceria com estudantes do curso de Zootecnia da Udesc Oeste, responsáveis pelo cuidado e bem-estar dos cães. Como pré-requisito para participação, todos os animais estavam em bom estado de saúde e nenhum rejeitou o biscoito. 

Agora com sete anos, os cães da raça beagle estão adaptados à Fazenda Experimental desde filhotes. A etapa contou ainda com o auxílio e coordenação do professor Aleksandro Schafer da Silva, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Zootecnia (PPGZOO).

Valorização do produto regional

Para a professora Aniela, trazer informações nutricionais sobre alimentos ainda pouco consumidos e conhecidos do público foi um dos principais objetivos ao estudar plantas nativas da região Sul. 

“O Brasil é um país com uma diversidade vegetal enorme”, afirma. “Mas quase não encontramos, nos mercados, produtos que utilizem folhas de plantas nativas. Todo mundo associa Minas Gerais a queijo e doce de leite; Serra Gaúcha, a vinho. Por que não trazer foco para a nossa região por meio de uma matéria-prima regional?”.

Os resultados da pesquisa sobre guabiroba são uma oportunidade para que pequenos produtores desenvolvam novos alimentos utilizando a própria ciência como forma de valorizá-los, ressalta a professora. “Eles podem afirmar que nosso estudo comprovou uma série de benefícios, por exemplo”. 

Além da guabiroba, o Laboratório de Bioprocessos, coordenado pela docente, já desenvolveu estudos sobre outras plantas nativas brasileiras como araçá, pitanga, feijoa e jabuticaba. Atualmente, a professora pesquisa os impactos de leites fermentados na saúde humana.  

O projeto sobre plantas nativas da região Sul recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc) e foi encerrado em dezembro de 2025. Estudos futuros devem surgir conforme o interesse de novos alunos ingressantes no Mestrado Acadêmico em Ciência e Tecnologia de Alimentos. 

Contate a pesquisadora

Aniela Pinto Kempka é professora da Udesc no Departamento de Engenharia de Alimentos e Engenharia Química, no Mestrado Acadêmico em Ciência e Tecnologia de Alimentos e no Programa Multicêntrico de Pós-Graduação em Bioquímica e Biologia Molecular. Possui doutorado em Engenharia Química pela UFSC. Atua nos seguintes temas: bioprocessos, obtenção enzimática e fermentativa de peptídeos bioativos, extração enzimática de compostos com propriedades bioativas oriundos de fração de plantas.
E-mail: aniela.kempka@udesc.br 

Este texto integra o projeto Udesc+Ciência, produzido pela Secretaria de Comunicação da Udesc com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc).  


Assessoria de Comunicação da Udesc 
Jornalista Dairan Paul 
E-mail: comunicacao@udesc.br 
Telefone: (48) 3664-8006   
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  • A guabiroba-amarela é uma planta nativa da região Sul. Créditos: acervo da professora Aniela Kempka.
  • A equipe comparou os dois extratos, da folha (esq.) e do fruto (dir.). Créditos: acervo da professora Aniela Kempka.
  • O extrato das folhas é mais poderoso do que o fruto. Créditos: acervo da professora Aniela Kepmka.
  • Para realizar a extração, o método escolhido foi o da infusão a quente. Créditos: acervo da professora Aniela Kempka.
  • A equipe analisou a caracterização dos extratos, desde atividades antioxidantes até o teor de compostos fenólicos. Créditos: acervo da professora Aniela Kempka.
  • O biscoito para cães foi desenvolvido após ajustes no nível adequado de concentração do extrato. Créditos: acervo da professora Aniela Kempka.
  • Vanessa Ruana Ferreira da Silva desenvolve tese de doutorado sobre as propriedades da guabiroba. Créditos: acervo da professora Aniela Kempka.
  • Cristiane Tremea defendeu dissertação de mestrado sobre o potencial de controle glicêmico da guabiroba. Créditos: acervo da professora Aniela Kempka.
  • Aniela Kempka é professora na Udesc Oeste e responsável por coordenar as pesquisas sobre guabiroba. Créditos: acervo pessoal.
 
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