Paula Gotelip, egressa da Udesc e idealizadora do projeto "Spectrum". Foto: Caio Lírio
O projeto “Spectrum”, idealizado pela doutora e mestra em Artes Cênicas pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) Paula Gotelip, foi reconhecido como boa prática global pela International Inclusive Arts Network (IIAN), comunidade vinculada à Associação Internacional de Teatro para a Infância e Juventude (ASSITEJ). Pautado na experiência cênica para crianças neurodivergentes e com deficiência, o trabalho foi apresentado ao lado de iniciativas da Lituânia e da Turquia. No elenco, há outros dois egressos e dois estudantes da Udesc.
O objetivo do projeto é ampliar o acesso à cultura, não apenas no sentido de permitir a entrada dessas crianças no teatro, mas de criar uma experiência que elas possam participar com seus corpos reais. Fundamentado na metodologia da poética sensorial e na abordagem da Relaxed Performance, as cenas ocorrem através do uso de luz suave, poucos estímulos e brinquedos sensoriais.
Ao iniciar as pesquisas nas Artes Cênicas, Paula percebeu que, nos formatos mais tradicionais de teatro, o que geralmente se oferece para crianças neurodivergentes são adaptações. Para a pesquisadora, é importante que elas possam usufruir da arte a partir dos seus próprios corpos, sem ajustes. “O Spectrum surge do compromisso de criar uma experiência cênica que não apenas receba essas crianças, mas que seja pensada com e para elas desde o início”.
A obra é uma criação coletiva com autoria de profissionais formados pela Udesc. Além de Paula, egressa do Centro de Artes, Design e Moda (Ceart), há os artistas César Rossi, graduado em Biblioteconomia, e Cézar de Castro, graduado em Música e Pedagogia. Vitória Borin e Arais Bernardo, também integrantes do elenco, são estudantes de Teatro na Udesc. Outra participante do grupo é Cristiane Munhoz, pós-doutoranda na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio).
A equipe do projeto é, em sua maioria, formada por pessoas neurodivergentes e pessoas com deficiência. De acordo com a idealizadora, isso torna o trabalho ainda mais pautado na acessibilidade, pois o recurso já faz parte da criação, da escuta e da organização do Spectrum.
O projeto estreou em 2024 no Centro de Educação Popular (Cedep), em Florianópolis, e, desde então, faz apresentações nacionais e internacionais. Em 2024 e 2025 participou do Congresso Internacional de Artes Performativas para Crianças e Jovens na Polônia, sendo o único representante das Américas. Já em maio de 2026, se apresentou na 16ª edição do Festival Internacional de Teatro de Animação (Fita), também em Florianópolis.
Para Paula, a participação do Spectrum em eventos internacionais significa uma expansão da trajetória acadêmica e profissional, mostrando que a pesquisa não é uma questão localizada. “Não se trata só de levar um espetáculo para fora. Trata-se de afirmar que esses corpos, essas crianças e essas formas de estar no mundo precisam fazer parte das discussões sobre arte, cultura e infância em qualquer lugar”.
Foi na Udesc que a artista consolidou essa relação entre prática artística e pesquisa acadêmica. “A Universidade contribui na formação de um olhar crítico, atento e comprometido com a prática e teoria do campo das artes cênicas”, afirma.
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