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Notícia

18/11/2025-13h36

No mês da Consciência Negra, estudantes da Udesc Esag celebram três anos do Coletivo Guerreiro Ramos

Programação especial marca a passagem da data

No mês da Consciência Negra, o Centro de Ciências da Administração e Socioeconômicas (Esag) da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) celebra os três anos do Coletivo Guerreiro Ramos. Desde a sua criação, o grupo se consolidou como referência de acolhimento, articulação e debate sobre as relações étnico-raciais na universidade. Nos dias 13 e 14, cerca de 40 participantes reuniram-se em rodas de conversa, práticas corporais e momentos de partilha que marcaram a programação do aniversário. Para os organizadores, as atividades reforçaram o compromisso do coletivo em construir um pensamento social e político enraizado na realidade brasileira, reconhecendo as contribuições negras, indígenas e populares como centrais na formação do país.

A história do coletivo começa com o olhar de Flavio Facha Gaspar, conhecido como Abu, egresso de Administração Pública e natural de Luanda, Angola. Ao chegar ao Brasil em 2017 para estudar na Udesc Esag, Abu estranhou a ausência de docentes e servidores negros nos espaços de maior prestígio acadêmico. “Eu só via pessoas iguais a mim como terceirizados, como vigilantes, pessoas da limpeza e faxina, e isso me incomodava”, lembra. A percepção contrastava com a imagem diversa que ele havia construído do Brasil a partir de novelas e produções culturais que acompanhava ainda na África.

Movido por esses incômodos e ao lado das colegas Ana Duarte, Gabriela Baía e Natália Cristina de Castro, com apoio do conselheiro Vinicius Amaro Pinto da Costa, Abu iniciou o movimento que daria origem ao coletivo. Com a orientação dos professores Felipe Gontijo, de Administração Empresarial, Karin Viera, de Administração Pública, e Marcello Zappellini, da Economia, o grupo amadureceu a proposta em 2021 e oficializou o lançamento do Coletivo Negro Guerreiro Ramos em novembro de 2022. “Criar um coletivo que promovesse o debate sobre igualdade racial na Udesc Esag era o que nos movia. Queríamos trazer a pauta étnico-racial para os cursos”, recorda Abu.

A trajetória do coletivo dialoga diretamente com a experiência de Karina Francine Marcelino, hoje doutora em Administração pela Udesc Esag. Ela ingressou na graduação em 2011, quando ainda não havia ações afirmativas na universidade, implementadas no segundo semestre daquele ano. “Quando eu ingresso, sou a única menina negra desse espaço. Por muitas vezes eu me sentia sozinha e isolada”, relembra. Apesar do acolhimento de colegas e professores, Karina não identificava um ambiente em que a negritude fosse reconhecida e debatida.

Anos depois, ao retornar como mestranda, encontrou outra realidade: uma Esag “mais colorida e diversa”, resultado da implementação das políticas de ações afirmativas e da chegada de estudantes de múltiplas origens. Essa transformação tornou-se ainda mais evidente quando ela ingressou no doutorado, justamente o período de criação do Coletivo Guerreiro Ramos.

Foi nesse contexto que Karina se aproximou do grupo, inicialmente como palestrante. Sua pesquisa sobre racismo na pós-graduação em Administração nas universidades públicas de Santa Catarina respondia diretamente às inquietações e necessidades do coletivo. Ao compartilhar seus estudos e experiências, ajudou a fortalecer estudantes negros e não negros na compreensão das relações étnico-raciais, dos mecanismos de reprodução do racismo e das potências da negritude no ambiente acadêmico. Essa troca de saberes e experiências teve impacto direto nos integrantes do coletivo, inspirando-os a se engajar e aprofundar seu próprio percurso acadêmico e social.

O estudante de Administração Pública da Udesc Esag Gabriel Pereira integrou o Coletivo Guerreiro Ramos até 2024 e avalia que a experiência foi decisiva para sua formação acadêmica, pessoal e racial. Hoje no centro acadêmico, permanece como membro de apoio, orientando novos integrantes, compartilhando aprendizados e facilitando articulações.

Ele destaca que a convivência com outros estudantes negros ampliou sua visão de mundo e fortaleceu sua identidade racial. As ações de acolhimento, como rodas de fortalecimento e encontros com psicólogos voltados ao público negro, ajudaram a reconstruir a autoestima dos participantes.

Como coordenador de eventos, Gabriel organizou diversas iniciativas sociais em escolas, comunidades e casas-lares, além de projetos em diferentes regiões. Essa vivência despertou seu interesse pela gestão de atividades sociais e o motivou a criar o projeto “Projetando o Seu Sonho”, que apresenta a universidade pública a jovens do ensino médio e fundamental.

Além das competências desenvolvidas, Gabriel ressalta os laços afetivos construídos no coletivo e reconhece o impacto profundo da experiência em sua trajetória: o espaço o ajudou a descobrir habilidades que desconhecia e ocupa um lugar especial em sua vida.

“Fiz amizades que levo até hoje. A gente conversa, ri, se apoia. Isso é a parte mais gostosa”, comenta. Para ele, o Coletivo Guerreiro Ramos deixou marcas profundas. “Tem um espaço muito bonito no meu coração. Fez com que eu percebesse capacidades que eu nem sabia que tinha.”

Na visão dos seus organizadores, o Coletivo Guerreiro Ramos ao celebrar seus três anos fortalece sua importância como espaço de formação, resistência e construção coletiva, um movimento que transforma sujeitos, amplia horizontes e contribui para uma universidade mais justa, plural e comprometida com a equidade racial.

Capoeira e rodas de partilha marcam a programação

A programação pelos três anos do Coletivo Guerreiro Ramos começou no dia 13 com uma roda de capoeira conduzida pelo Grupo Resilientes Balanço da Lagoa. À frente da atividade esteve o professor Thiago Mazlum Ferreira, que há 16 anos desenvolve projetos sociais e educacionais voltados a crianças e adolescentes. A apresentação destacou o corpo e o movimento como expressões de resistência, diálogo e celebração.

Em seguida, a Roda de Partilha 1, intitulada “A terra é nossa: Agroecologia e organização coletiva”, reuniu convidados que atuam diretamente na construção de formas alternativas de produzir e viver em comunidade. Daltro Sousa, assentado da reforma agrária e coordenador do Instituto de Formação Popular Caeté, apresentou experiências de luta e mobilização no campo. Jussara Lima, militante desde os 11 anos, curandeira, benzedeira e liderança da UNEGRO, trouxe sua trajetória multifacetada como artista, terapeuta e articuladora política, ressaltando o protagonismo das mulheres negras. Rafael Machado, psicólogo, educador popular e produtor agroecológico, abordou seu trabalho na Comuna Amarildo de Souza e no Instituto Caeté, enfatizando o papel da educação popular na agroecologia. Já Eduardo Daniel da Rocha tratou de temas ligados à Segurança Alimentar e Nutricional, Agroecologia e Economia Solidária, oferecendo um panorama sobre políticas públicas, abastecimento e organização comunitária.

A segunda mesa, “Soberania Alimentar: A gente não quer só comida”, ampliou o debate para as interfaces entre alimentação, saúde e práticas integrativas. O nutricionista, cientista social e professor de yoga Cristiano Ogasavara compartilhou sua experiência em projetos sociais e iniciativas de cuidado comunitário. Janine Schmitz, multiativista e empresária do setor de sustentabilidade com foco em cosmetologia natural, relatou sua trajetória no consumo consciente e no empreendedorismo de impacto. A pesquisadora e administradora pública Isabela da Cunha Vieira apresentou reflexões sobre cozinhas coletivas como espaços de construção do comum, aproximando pesquisa acadêmica e prática social. Encerrando a roda, a nutricionista e terapeuta ayurvédica Jacobina Cantisani discutiu abordagens ampliadas de alimentação, conectando saúde, território e espiritualidade.

No segundo dia de comemorações, um café aberto recebeu a comunidade acadêmica, oferecendo um ambiente de acolhimento, reencontros e integração entre estudantes, docentes e técnicos. Paralelamente, uma atividade lúdica especialmente elaborada para o evento estimulou conversas espontâneas e o fortalecimento de vínculos, reforçando a proposta do coletivo de promover relações comunitárias mais humanas e colaborativas.

Uma das integrantes do grupo, a doutoranda em Administração pela Udesc Esag Amanda Lima, destacou a relevância do coletivo na própria formação. “Nosso coletivo leva o nome de Guerreiro Ramos justamente porque ele defendia uma sociologia e uma ciência organizacional efetivamente brasileiras, e não apenas a reprodução de teorias internacionais. Acreditamos que, para isso, é fundamental estudar mais os quilombos e aldeias como exemplos vivos de outra forma de organização social”, afirmou.

As celebrações ocorreram às vésperas do Dia de Zumbi e da Consciência Negra, reforçando o caráter político do encontro. Para os integrantes, as datas evocam a necessidade de reconhecer histórias e contribuições que ultrapassam os registros oficiais. “Comemoramos três anos de existência e o segundo com ações vinculadas ao edital Procult de extensão, mas ainda não temos uma sede física em nosso próprio centro. Seguimos ocupando a universidade com iniciativas como esta, porém o apoio institucional concreto permanece uma demanda essencial”, destacou a Amanda.

Sobre Guerreiro Ramos

Alberto Guerreiro Ramos (1915–1982), conhecido simplesmente como Guerreiro Ramos, foi um sociólogo, político e intelectual afro-brasileiro de grande relevância no século XX. Ele foi um dos pioneiros a criticar a aplicação acrítica de paradigmas europeus na sociologia brasileira, defendendo uma abordagem mais ajustada à realidade nacional.

Também refletiu profundamente sobre as relações raciais no Brasil, sendo considerado um precursor da compreensão do racismo estrutural, ao ligar a opressão do negro à lógica colonial persistente na sociedade brasileira. Político ativo, foi deputado federal pelo PTB até ser cassado após o golpe militar de 1964. Exilado nos Estados Unidos, lecionou na University of Southern California. Sua produção acadêmica inclui dezenas de livros e artigos, e sua obra ganhou importância crescente nas discussões sobre sociologia crítica, teoria das organizações e desenvolvimento nacional.

Núcleo de Comunicação da Udesc Esag
Jornalista Magali Moser
E-mail: comunicacao.esag@udesc.br
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