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Notícia

05/08/2026-18h40

Palestra e oficina abordam memória, democracia e narrativa na Udesc

O jornalista Camilo Vanucchi lançou o livro Brasil: Nunca Mais – os bastidores da maior denúncia contra a ditadura já feita no Brasil

O jornalista Camilo Vannuchi concedeu palestra e conduziu oficina no auditório da Udesc Ceart. Fotos: Nucom/Ceart
A memória da ditadura militar brasileira esteve no centro dos debates na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) nesta terça e quarta-feiras, 4 e 5. O jornalista, escritor e pesquisador Camilo Vannuchi reuniu estudantes, professores, pesquisadores e comunidade externa para refletir sobre como narrar um dos períodos mais traumáticos da história do país e discutir de que forma esse passado continua a dialogar com o presente. A iniciativa foi uma promoção em conjunto entre o Centro de Artes, Design e Moda (Ceart) e o Centro de Ciências Humanas e da Educação (Faed).

A programação reuniu estudantes, professores, pesquisadores e comunidade externa no Auditório Professora Maria Cristina Pessi, da Udesc Ceart.

Sobre a palestra

No primeiro dia, Vannuchi apresentou a palestra "Brasil: Nunca Mais – os bastidores da primeira Comissão da Verdade", seguida pelo lançamento e sessão de autógrafos do livro-reportagem Nunca Mais. No segundo, conduziu a oficina "Nunca Mais e outras histórias da ditadura: do podcast ao livro (e vice-versa)", em que compartilhou o processo de pesquisa e produção de seus trabalhos em diferentes formatos narrativos.

Durante a palestra, o autor revelou os bastidores da investigação que deu origem ao livro, resultado de uma extensa pesquisa sobre o projeto clandestino que, entre 1979 e 1985, copiou e analisou centenas de processos do Superior Tribunal Militar para documentar casos de tortura praticados durante a ditadura.

Segundo Vannuchi, embora o livro Brasil: Nunca Mais tenha sido publicado em 1985, a história de sua elaboração permaneceu pouco conhecida durante décadas.

“Os bastidores foram sendo descobertos aos poucos. Como tudo foi feito clandestinamente, nem os autores apareciam na publicação. Eu queria entender quem eram as pessoas que copiaram mais de um milhão de páginas, quem organizou esse material, quem escreveu o livro e como tudo isso foi financiado”, explicou.

A pesquisa revelou detalhes inéditos da operação, como o financiamento vindo do Conselho Mundial de Igrejas, sediado em Genebra, cujos recursos chegavam ao Brasil em espécie, escondidos em doleiras para evitar qualquer rastreamento durante a ditadura. Também mostrou que todo o acervo foi microfilmado e enviado para a Suíça como forma de preservar as informações caso o material fosse apreendido pelos órgãos de repressão.
Para o pesquisador, além de revelar curiosidades históricas, o trabalho reforça a dimensão do projeto.

“Foram identificados 242 centros de tortura e 444 torturadores já em 1985. Isso desmonta a ideia de que a tortura não era uma política de Estado. Era um sistema organizado, documentado e conhecido pela Justiça Militar”, argumenta.

Vannuchi também relacionou o tema ao cenário político contemporâneo. Para ele, o significado da ditadura voltou a ser objeto de disputa na sociedade brasileira.

“Eu cresci achando que era consenso que a ditadura não deveria voltar nunca mais. Hoje vejo pessoas defendendo o AI-5, relativizando a tortura e exaltando aquele período. Por isso, contar essas histórias continua sendo uma forma de defender a democracia”, acredita.

Do livro ao podcast

Na oficina realizada no segundo dia, Vannuchi abordou o processo de adaptação de pesquisas históricas para diferentes linguagens, especialmente o podcast narrativo, formato que tem marcado sua produção nos últimos anos.

O jornalista Felipe Trautwein Barbosa, responsável pela produção de áudio das séries Eu Só Disse Meu Nome, Caso Herzog e Nunca Mais, explicou que o trabalho busca transformar documentos históricos em experiências sonoras, capazes de transportar o ouvinte para diferentes contextos.

Segundo ele, a força do podcast está justamente na construção de imagens por meio do som.

“Quando o roteiro chega, já começo a imaginar quais ambientes precisam ser criados. Às vezes é uma fazenda dos anos 1970, às vezes o centro de São Paulo naquele período. A gente pesquisa referências e trabalha para que o ouvinte visualize a cena apenas ouvindo”, comenta.

Trautwein destacou que o áudio permite recriações complexas com poucos recursos. Como exemplo, contou que uma das cenas de tortura presentes em um dos podcasts foi produzida utilizando apenas um microfone e um travesseiro.

“Eu gravei em casa. Dei socos em um travesseiro, tratei o som e o resultado transmite uma sensação muito forte. No vídeo, uma cena como essa exigiria uma produção muito mais cara. O podcast permite criar imagens na cabeça das pessoas”, acredita.

Ele ressaltou ainda que a parceria com Vannuchi foi facilitada pela qualidade da pesquisa histórica e dos roteiros, desenvolvidos em conjunto com o jornalista Pedro Belo, seu sócio na produtora.

Formação e diálogo entre áreas

A iniciativa foi organizada em parceria entre Ceart e Faed, reunindo professores de diferentes áreas.

Para a professora Mariana Joffily, do Programa de Pós-Graduação em História da Udesc, a presença de Vannuchi dialogou diretamente com a disciplina “Democracia e Autoritarismo na América Latina”, oferecida neste semestre.

“O projeto Brasil Nunca Mais faz parte da história da transição da ditadura para a democracia. Além disso, foi uma oportunidade de discutir história pública, divulgação científica e os bastidores da produção de livros e podcasts históricos. Ter acesso ao autor e conhecer esse processo foi uma experiência muito rica para estudantes e pesquisadores”, comenta.

Mariana destacou ainda a convergência entre suas pesquisas sobre o DOI-CODI e os trabalhos desenvolvidos por Vannuchi sobre Alexandre Vannucchi Leme, Vladimir Herzog e a violência praticada pelos órgãos de repressão.

O professor Vicente Concilio, da Udesc Ceart, explicou que a programação integra as ações da Comissão (DES)Memórias das Ditaduras, criada para promover atividades voltadas à reflexão sobre o golpe de 1964 e seus impactos.

Segundo ele, a proposta também fortaleceu a integração entre Ceart e Faed:

“Tivemos uma palestra com excelente participação de público e uma oficina bastante produtiva. Além disso, muitas pessoas presentes tinham histórias familiares ligadas à ditadura, o que tornou os debates ainda mais significativos.”

Para o professor, um dos diferenciais da apresentação foi a forma como Vannuchi aproxima a história coletiva de sua própria trajetória familiar, humanizando temas frequentemente tratados apenas sob uma perspectiva documental.

Ao longo dos dois dias, as atividades abordaram pesquisa histórica, jornalismo investigativo e novas linguagens narrativas. As reflexões reforçaram que revisitar o passado permanece um exercício essencial para compreender o presente.


Considerações de Camilo Vannuchi sobre o livro "Nunca Mais"

Udesc - Como a relação entre jornalistas e historiadores pode se complementar quando se fala em uma busca pela verdade, pelo esclarecimento dos fatos do que realmente aconteceu em um contexto de ditadura?

Camilo Vannuchi - 
Nós, jornalistas, fazemos um registro da história imediata, a sangue quente, do que acabou de acontecer. Sou jornalista, eu não sou historiador.

O historiador acaba voltando no tema para olhar com uma capacidade de interpretação, de reflexão, que é importante para entender os processos que nos levaram a chegar naqueles episódios que o jornalista conseguiu contar, mas sem interpretar com a profundidade. E para entender muitos desses processos, a gente precisa recorrer ao ciclo da história do Brasil.

Às vezes o tempo vai mostrar os erros, as paixões, as escolhas erradas que fizemos, inclusive no jornalismo. O jornalismo passa pano muitas vezes para coisas que depois, com a ajuda da história e dos historiadores, a gente vai entender que caímos numa cilada e que a coisa não foi bem assim, escolhemos falsos heróis, esse tipo de coisa acontece. Então acho que eles se complementam nesse sentido.



Udesc - Como foi o processo de apuração desses fatos? Quais as principais descobertas?

Vannuchi - 
Nesse livro, o “Nunca Mais” e no podcast “Nunca Mais”, que são os mais recentes, eu precisava contar uma história que as pessoas conheciam, o resultado dela, que foi um livro chamado “Brasil Nunca Mais”, mas contar os bastidores, as coisas que as pessoas não contaram ainda, quem fez, onde se escondiam, quem financiou, de onde vinha o dinheiro, então, é, para isso, eu acho que isso que foi a parte instigante do meu trabalho, que era, voltar numa história de 45 anos atrás, o livro que foi publicado há 41 anos atrás, e contar esse percurso.

Quando se ouve falar do Brasil Nunca Mais, esse projeto, a gente conhece os nomes dos advogados, dos religiosos, que eram os porta-vozes, pessoas muito famosas. E eu queria chegar nas pessoas.

Quem tirou o xerox do papel? Quem fez o microfilme? Quem leu 1 milhão de páginas? Não foram esses caciques, entre aspas, né? Foram esses peões, essa foi a parte mais legal que eu achei do trabalho, poder chegar nessas pessoas, pessoas que não sabiam muito bem o que estavam fazendo, tinham 16, 17 anos de idade, então foi legal ter essa descoberta.


Udesc - Como é para você contar essas histórias não só com os seus livros, mas também aulas como essa que você deu aqui na Udesc?

Vannuchi -
Eu acho que essa experiência tem a ver com o debate público, com a esfera pública. A ideia de que uma pessoa não é dona de uma informação, dona de um pensamento. Esse pensamento flui no coletivo.

Assessoria de Comunicação da Udesc Faed
Jornalista Magali Moser (MTB/SC 02353)
Estagiária de Jornalismo Isadora Bringhenti
Telefone: (48) 3664 8512
E-mail: comunicacao.faed@udesc.br

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