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Notícia

08/07/2026-15h16

Udesc+Ciência: centros de repressão latino-americanos inspiram futuro memorial do DOI-Codi

Professora da Udesc Faed participa de pesquisa internacional sobre locais de detenção e tortura

A oeste do centro histórico de Cidade do México, o bairro Roma Norte, conhecido pelas ruas arborizadas e galerias de arte, abriga um edifício de seis andares. O prédio funcionou como escritório da principal agência de inteligência do governo mexicano, a Divisão Federal de Segurança, durante a década de 1970. Métodos de detenção, tortura e interrogatório foram utilizados pela polícia política para espionar e neutralizar ameaças à segurança nacional.

Agora, no subsolo do imóvel, localiza-se o espaço de memória Circular de Morelia 8, nome que remete à rua do bairro. Trechos de falas de sobreviventes do período ilustram as paredes: “é importante que as pessoas saibam que esses lugares existiram, para que isso não aconteça novamente”. 

O Circular de Morelia 8 foi visitado pela professora Mariana Joffily, do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História (PPGH), do Centro de Ciências Humanas e da Educação (Faed), da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). A atividade fez parte do seu estágio de pós-doutorado realizado na Universidad Nacional Autónoma de México (Unam), no México, e integra a pesquisa “Situando o DOI-Codi na contrainsurgência latino-americana”, que mapeou sete memoriais da ditadura militar nos países do Cone Sul (Argentina, Chile, México, Paraguai e Uruguai). 

Sob coordenação da professora da Udesc, o projeto reúne universidades nacionais e internacionais. Fazem parte pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Universidade Federal da Bahia (UFBA), Universidade Nacional de Rosário (Argentina), Universidade de Santiago do Chile (USACH) e Universidade da Califórnia San Diego (UCSD). 

O objetivo é levantar informações para subsidiar a construção do futuro memorial do Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna de São Paulo (DOI-Codi/SP), reconhecido como um dos mais atuantes centros de tortura e assassinato de perseguidos políticos do Brasil. O país tem pelo menos 49 locais históricos ligados à ditadura militar, segundo levantamento do projeto Lugares pela Memória, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. 

Centros de repressão são transformados em espaços de memória através da ação combinada entre a sociedade civil e o Estado. “Diferente de museus, que você aluga ou compra o espaço, estes lugares têm uma história, uma marca da função que desempenharam. São a prova material da violência”, reflete a docente.

As experiências latino-americanas estão em diferentes estágios de institucionalização, indica a pesquisa. Memoriais em fase inicial ou intermediária, como El Pozo (Rosario, Argentina) e Irán 2027 (Santiago, Chile), realizam atividades episódicas. Espaços mais avançados, como o EX-Sid, em Montevidéu (Uruguai), mantém eventos regulares sobre direitos humanos, visitas guiadas, acervo de fotos, áudios e vídeos, lista de perpetradores e até instrumentos cenográficos de tortura.

Contudo, todos os projetos enfrentam dificuldades para obter recursos financeiros e dar continuidade às políticas públicas de reparação.

“Há elementos muito semelhantes entre os países. Um deles é essa ação meio heroica de atores sociais que mantém estes espaços por uma militância em prol da memória”, afirma a professora. 

Atividades pedagógicas

Como resultado das visitas a campo feitas pela rede de pesquisadores, três propostas pedagógicas foram apresentadas ao Grupo de Trabalho Memorial DOI-Codi, iniciativa do qual Mariana faz parte e que reúne universidades, organizações de defesa dos direitos humanos e sociedade civil. Em fase de testes, o material educativo deve integrar as visitas guiadas do espaço no segundo semestre de 2026. É possível conhecer o museu virtualmente no site do projeto.  

Voltado a estudantes do ensino médio e fundamental, o conteúdo das propostas instiga reflexões sobre como a atual geração se distancia e se aproxima daquela que foi perseguida na ditadura. 

A primeira detalha a trajetória de ex-presos dos centros de repressão – como Amelinha Teles, jornalista e militante feminista torturada no DOI-Codi/SP, e Ivan Seixas, sequestrado pela Operação Bandeirantes quando ainda era menor de idade. 

Na segunda atividade, haverá a distribuição de fichas informativas sobre espaços de memória latino-americanos. O objetivo é debater a relação de outros países com o passado ditatorial. Estudantes serão orientados a observar como memoriais representam a violência, se há a presença de vítimas e perpetradores nas exposições, e quais objetos museológicos fazem parte dos acervos.  

Por fim, a terceira proposta convida o público a discutir, imaginar e propor como deve ser o futuro Memorial do DOI-Codi/SP, com base nas experiências já consolidadas dos países da América Latina. 

Carreira de torturadores

A professora Mariana Joffily é referência nos estudos sobre história do tempo presente, campo da historiografia que analisa como acontecimentos do passado impactam a atualidade. Em 2025 lançou o livro “Torturadores – perfis e trajetórias de agentes da repressão na ditadura militar brasileira”, assinado em parceria com a pesquisadora francesa Maud Chirio (Universidade Gustave Eiffel). 

Pioneira, a obra é um dos poucos estudos sobre perpetradores no Brasil. Pesquisadores têm dificuldade para analisar arquivos disponíveis publicamente devido ao volume de documentos, ao excesso de termos técnicos e à omissão de informações.

“O universo militar é um mundo muito particular. A documentação é cifrada, cheia de iniciais e muita coisa não está dita. Você precisa ler nas entrelinhas e cruzar as informações com outras fontes, o que requer paciência e especialização na área”, explica a docente.

Foi quando as autoras descobriram as folhas de alteração, documentos que registram a trajetória militar e funcional dos agentes. Um único arquivo pode chegar a mais de 500 páginas, contando trechos repetidos. Nele estão informações como cursos, mudanças de cargo e avaliações pelos superiores. 

“O filé mignon do documento é a série de elogios feitos ao militar. O serviço de inteligência, por exemplo, era particularmente valorizado. Se a pessoa trabalhou na área, o dado constava na folha de alteração como algo que engrandecia a sua trajetória”. 

O cruzamento das fontes da pesquisa (folhas de alteração e arquivos diversos) explica algumas das razões para a escolha pela “profissão” de torturador. Do ponto de vista econômico, a carreira prometia boas chances de promoção hierárquica. Também apresentava oportunidades para especialização e treinamento de técnicas. Outro fator de influência é a lealdade aos superiores.

A decisão pelo ingresso na carreira, no entanto, não seria possível sem o estímulo do aparato repressivo do Estado. Para Mariana, os resultados do livro destacam o funcionamento bem-sucedido dessa estrutura.

“Torturadores não se fazem sozinhos. São um fenômeno sociopolítico que vai muito além da questão do desvio ou da patologia individual. O torturador é criado numa determinada sociedade, num determinado tempo e espaço”, comenta a pesquisadora. 

Aprendizado das técnicas

Já inseridos na carreira, militares aprendiam técnica de tortura por duas vias principais: prática cotidiana e especialização teórica. Havia certo conhecimento acumulado pelas ações policiais, destaca Mariana. Ainda no final da década de 1950, grupos de extermínio como os Esquadrões da Morte, formados pela polícia e por agentes da lei, utilizavam violência física e psicológica extrema para o combate ao crime. 

No mesmo período, o contato de militares com manuais de guerra do Exército francês ajudou a institucionalizar a tortura e o desaparecimento forçado como métodos para coleta de informação. Após a derrota no conflito contra a Indochina, a França desenvolveu estratégias de guerrilha voltadas ao combate de inimigos internos, que se confundiam com a própria população do país. 

Posteriormente, essa doutrina foi compartilhada com militares brasileiros pela oferta de cursos e treinamentos, afirma a pesquisadora. Informações da Comissão Nacional da Verdade também revelam que militares brasileiros tiveram aulas teóricas e práticas sobre tortura em instituições militares dos Estados Unidos.

“Uma das conclusões da pesquisa é que militares brasileiros consideram existir uma espécie de escola brasileira de práticas e saberes. E, para eles, isso seria motivo de orgulho”, afirma a docente. 

Reflexos no presente

Mariana e Maud estudaram a trajetória de torturadores que pertenceram à elite das Forças Armadas. Esse grupo de militares, oficiais e generais construiu toda a carreira, ou parte significativa dela, em órgãos relacionados à repressão política, como o Serviço Nacional de Informações (SNI) e o Centro de Inteligência do Exército (CIE). Também vão atuar em secretarias de estado e instituições federais. 

A professora da Udesc Faed tem como hipótese que a chegada dos militares aos órgãos de segurança pública estimula o uso de técnicas de tortura pela polícia civil, mas agora aperfeiçoadas pelo conhecimento adquirido no período ditatorial.

Batalhões especiais, por exemplo, criados sob a justificativa de neutralizar ameaças terroristas, são um sintoma da lógica militar, avalia a docente. 

Até hoje, agentes repressivos recebem prêmios pela “disciplina” e “lealdade” à instituição, como a Medalha do Pacificador com Palma. Boa parte atinge o ápice da carreira e consegue se aposentar recebendo altos valores. Entre dezembro de 2014 e dezembro de 2024, o Estado gastou mais de R$550 milhões em aposentadorias e pensões a torturadores e familiares, afirma pesquisa do Instituto Vladimir Herzog.

Além de “Torturadores”, Mariana também é autora de “No centro da engrenagem: os interrogatórios na Operação Bandeirantes e no DOI de São Paulo (1969-1975)”. O livro resulta de sua tese de doutorado na Universidade de São Paulo (USP) e foi um dos ganhadores do Prêmio Memórias Reveladas 2010

Contate a pesquisadora

Mariana Joffily é professora no Departamento de História e no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). Possui doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo e realizou estágio de pós-doutorado em História na Universidade Federal de Santa Catarina (2009), na Brown University (Estados Unidos, 2015-2016) e na Universidade Nacional Autônoma do México (2025). Atua nos seguintes temas: história do tempo presente; ditaduras no Cone Sul; repressão política; transição democrática; contrainsurgência.
E-mail: mariana.joffily@udesc.br 

Este texto integra o projeto Udesc+Ciência, produzido pela Secretaria de Comunicação da Udesc com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc).


Assessoria de Comunicação da Udesc  
Jornalista Dairan Paul  
E-mail: comunicacao@udesc.br  
Telefone: (48) 3664- 8006   
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  • Imagem 1
  • A professora Mariana Joffily, da Udesc Faed, é referência nacional nas pesquisas sobre história do tempo presente. Créditos: Dairan Paul.
  • Edifício que abriga o espaço de memória Circular de Morelia 8. Créditos: acervo da pesquisadora Mariana Joffily.
  • Edifício que abriga o espaço de memória Circular de Morelia 8. Créditos: acervo da pesquisadora Mariana Joffily.
  • O Circular de Morelia 8 localiza-se no subsolo do edifício. Créditos: acervo da pesquisadora.
  • Exposição do Circular de Morelia 8, visitado pela professora Mariana. Créditos: acervo da pesquisadora.
  • Exposição do Circular de Morelia 8, visitado pela professora Mariana. Créditos: acervo da pesquisadora.
  • Exposição do Circular de Morelia 8, visitado pela professora Mariana. Créditos: acervo da pesquisadora.
  • Exposição do Circular de Morelia 8, visitado pela professora Mariana. Créditos: acervo da pesquisadora.
  • As visitas aos memoriais da América Latina resultaram em propostas pedagógicas apresentadas ao Grupo de Trabalho Memorial DOI-Codi/SP. Créditos: acervo da pesquisadora.
  • Fachada do DOI-Codi/SP. Créditos: Sérgio Sade (Editora Abril).
  • Mariana Joffily (esq.) e Maud Chirio (dir.) são autoras do livro
  • Folha de alteração de militar durante o período da ditadura, fonte de pesquisa para o livro
  • Imagem histórica do período ditatorial no Brasil. Créditos: arquivo nacional.
 
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