Ciência que transforma: estudo é conduzido pela professora Paula Schommer e integrantes do grupo Politeia
Em um cenário marcado por desafios sociais complexos, desigualdades persistentes e desconfiança nas instituições, a construção de um serviço público eficiente e próximo da população passa, necessariamente, por um princípio: a participação cidadã. É o que defende a professora Paula Schommer, pesquisadora do
Centro de Ciências Socioeconômicas e da Administração (Esag) da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), dedicada aos temas de transparência e coprodução no serviço público.
Segundo a especialista, enfrentar os problemas da sociedade exige mais do que soluções técnicas elaboradas dentro dos gabinetes.
“As pessoas que vivem os problemas da realidade são aquelas que têm as melhores ideias sobre como resolvê-los”, afirma.
Nesse sentido, a integração entre conhecimento técnico e político, produzido por servidores e especialistas, e a experiência concreta dos cidadãos torna-se essencial para produzir serviços e políticas públicas eficazes e legítimas.
Coprodução: um novo modelo de gestão pública
A chamada coprodução surge como um conceito-chave nesse debate. Trata-se da construção conjunta de serviços públicos entre governo e sociedade, em uma lógica colaborativa que rompe com modelos tradicionais, mais centralizados e distantes da população.
Para Schommer, essa abordagem não deve ser pontual ou eventual, mas incorporada ao cotidiano das instituições.
“Não é algo que se faz de vez em quando. Precisa ser parte do dia a dia, seja em escolas, serviços de saúde ou órgãos de controle”, explica.
Essa visão também amplia o conceito de accountability, tradicionalmente associado ao controle formal e ao combate à corrupção, para uma perspectiva mais participativa.
Nela, cidadãos deixam de ser apenas fiscalizadores e passam a atuar como agentes ativos na construção e no aprimoramento dos serviços e das políticas públicas.
Impacto na formação e na prática profissional
Um dos principais resultados das pesquisas desenvolvidas pela professora e seu grupo de pesquisa, o Politeia, está na formação de profissionais com uma visão mais colaborativa da gestão pública.
Egressos de cursos de graduação, mestrado e doutorado vêm ocupando posições em órgãos governamentais, organizações da sociedade civil e empresas, levando consigo valores como transparência, equidade e inovação.
Esse impacto formativo é apontado como um dos legados mais visíveis do trabalho acadêmico.
“Essas pessoas estão fazendo mudanças concretas nos espaços onde atuam, seja como gestores públicos ou lideranças comunitárias”, destaca.
Além disso, a pesquisadora ressalta o papel dos grupos de estudo como espaços coletivos de aprendizagem.
Mais do que um processo individual, a produção de conhecimento se fortalece no diálogo, na troca de experiências e na construção conjunta de ideias.
Desafios para avançar
Apesar dos avanços, os desafios ainda são significativos. Um dos obstáculos é a resistência cultural dentro das instituições públicas, que muitas vezes ainda operam de forma fechada e pouco transparente.
Para Schommer, superar essa barreira exige uma mudança de mentalidade: a participação cidadã não deve ser vista como ameaça, mas como oportunidade.
“Quanto mais transparente for o processo, inclusive ao reconhecer dificuldades, maior será a confiança da população”, afirma.
Outro ponto crítico é a percepção negativa que ainda recai sobre o serviço público. Em parte, isso se deve à falta de informação e de proximidade entre cidadãos e instituições.
Nesse contexto, iniciativas participativas podem ajudar a reduzir desconfianças e promover colaboração entre as partes.
O papel da participação e da tecnologia
O Brasil tem uma trajetória reconhecida internacionalmente em práticas participativas, como os orçamentos participativos iniciados nos anos 1990 em cidades como Porto Alegre (RS) e difundidas no Brasil e em países. de todos os continentes. Essas experiências demonstraram que é possível envolver a população em temas complexos, como a gestão de recursos públicos.
Com o avanço das tecnologias digitais e da inteligência artificial, novas oportunidades surgem para ampliar a transparência e a participação. No entanto, a pesquisadora alerta que os avanços não são lineares e convivem com retrocessos e pressões antidemocráticas.
Uma questão central para o futuro
Diante desse cenário, uma grande questão que orienta as pesquisas atuais é: como demonstrar, com evidências concretas, que transparência, coprodução e inovação melhoram efetivamente a vida das pessoas?
Responder a essa pergunta é fundamental não apenas para aprimorar políticas e serviços públicos, mas também para fortalecer a confiança na democracia.
“Se conseguirmos mostrar que essas práticas geram resultados reais, teremos mais condições de enfrentar os desafios atuais e construir uma sociedade mais justa”, conclui.
O debate proposto por Paula Schommer aponta para um caminho possível: um serviço público mais aberto, colaborativo e capaz de responder, com eficiência e legitimidade, às demandas da sociedade. E contando com a diversidade de experiências e conhecimentos da própria sociedade para isso.
Esta reportagem integra a série Ciência que transforma, da Udesc Esag. O projeto tem como foco principal fortalecer a iniciação científica e estimular a participação da comunidade acadêmica em projetos de pesquisa, com ênfase na linguagem simples.
Núcleo de Comunicação da Udesc Esag
Jornalista Magali Moser
E-mail: comunicacao.esag@udesc.br