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Notícia

08/10/2026-17h59

Udesc Lages realiza segunda Roda de Conversa do Projeto CAV Seguro

Encontro discutiu cultura machista, violências nem sempre reconhecidas e caminhos para proteção e orientação

Segundo encontro do CAV Seguro discutiu situações de violência que nem sempre são reconhecidas no cotidiano e formas de prevenção e proteção. Fotos: Letícia Mendonça Pimenta e Matheus Rosa
Formas de violência contra a mulher que nem sempre são reconhecidas no cotidiano estiveram no centro da segunda Roda de Conversa do Projeto CAV Seguro, realizada nessa quarta-feira, 7, no Centro de Ciências Agroveterinárias (CAV) da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). A atividade foi conduzida pelo juiz Alexandre Takashima, do Núcleo de Justiça Restaurativa da Comarca de Lages, e abordou temas como cultura machista, misoginia, violência psicológica, patrimonial e mecanismos de proteção.

O encontro dá continuidade às ações desenvolvidas após a mobilização de estudantes por mais segurança, realizada em 27 de agosto. Desde então, o debate passou por uma reunião entre acadêmicas, Direção do Centro, forças de segurança e poder público, pela criação do CAV Seguro, pela primeira Roda de Conversa e pela capacitação de servidores sobre acolhimento e o Protocolo “Não é Não”.

A diretora de Extensão da Udesc Lages, Verônica Flores da Cunha Scheeren, afirma que este tipo de discussão é uma etapa importante do trabalho de prevenção. “Nós sabemos que existe uma cultura bastante machista na nossa sociedade, na nossa região, na sociedade como um todo. Então, o grande objetivo é que a gente faça um enfrentamento desse comportamento”. O debate também está relacionado à defesa de condições de igualdade, com os mesmos direitos e oportunidades para mulheres no ambiente acadêmico, acrescenta Verônica.

A participação do público ampliou a discussão para experiências vividas no cotidiano. Pessoas presentes compartilharam situações relacionadas à cultura machista e misógina e relataram como determinadas mulheres acabam modificando comportamentos ou se adaptando diante dessas experiências. A troca permitiu discutir atitudes que, muitas vezes, aparecem de forma sutil e podem ser naturalizadas nas relações sociais. Alexandre recorreu a uma experiência pessoal para ilustrar esse tipo de comportamento: em determinada ocasião, um homem esbarrou em sua companheira, mas dirigiu o pedido de desculpas a ele, e não à própria atingida. O episódio foi usado na conversa para refletir sobre diferenças na forma como mulheres podem ser tratadas quando estão sozinhas ou acompanhadas por um homem.

A roda propôs, ainda, uma reflexão sobre as chamadas microações: atitudes que cada participante já adota ou pretende incorporar ao cotidiano para enfrentar comportamentos machistas e contribuir para relações mais respeitosas. O momento, portanto, combinou informações jurídicas com relatos, experiências e possibilidades de mudança nas práticas individuais.

Violências que podem passar despercebidas

Alexandre chamou atenção para formas de violência que podem ser mais difíceis de reconhecer por não envolverem, necessariamente, uma agressão física. Entre elas, está a violência patrimonial. O juiz aponta que ainda há dificuldade para dimensionar esse tipo de ocorrência e relata, na rotina do Judiciário, situações em que mulheres abrem mão de direitos patrimoniais quando do fim de um relacionamento como forma de encerrar o conflito. “Eu vejo mulheres pagando para ter paz, abrindo mão dos seus direitos e eventual partilha para poder ter paz”, relata.

A violência psicológica também apresenta desafios de identificação, inclusive para quem vivencia a situação. O magistrado menciona ainda a violência moral, marcada pelo rebaixamento da mulher, e situações de violência sexual dentro dos próprios relacionamentos. Determinadas concepções sobre o papel da mulher nas relações afetivas, explica o juiz, ainda podem dificultar o reconhecimento de uma violência sexual. “Não é só a violência física que nos preocupa, mas, sim, todas as outras formas de violência”, destaca.

A discussão também passou pela diferença entre uma situação de violência e o enquadramento jurídico de cada conduta. Takashima ressaltou que o debate não deve ficar restrito aos casos que configuram crime, já que outros comportamentos também podem causar sofrimento e exigir atenção. “Existem várias violências que tecnicamente não são crimes, mas não deixam de causar dor nas mulheres", sintetiza.

Caminhos de proteção e orientação

Outro ponto discutido foi o acesso aos mecanismos de proteção. O juiz destacou que mulheres em situação de violência podem buscar medidas protetivas e serviços da rede de atendimento. O magistrado também citou uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que reconheceu a aplicação das medidas protetivas de urgência da Lei Maria da Penha a casos de violência contra a mulher baseada no gênero, mesmo fora dos contextos doméstico, familiar ou afetivo.

A procura pelos órgãos de segurança ou pelo Judiciário, entretanto, nem sempre ocorre imediatamente. Alexandre chama atenção para as dificuldades enfrentadas por muitas mulheres até buscar proteção e avalia que outras possibilidades costumam ser procuradas antes de uma denúncia ou de um pedido de auxílio às autoridades. Em uma situação de violência em andamento, a orientação é acionar a Polícia Militar, pelo 190. A Central de Atendimento à Mulher, pelo 180, pode ser utilizada para orientação e encaminhamento em outras situações.

O isolamento também pode dificultar a busca por ajuda. O juiz relaciona esse processo ao afastamento de familiares e amigos que pode ocorrer em contextos de violência e reduzir a rede de apoio disponível à mulher. Conforme a avaliação do magistrado, o enfrentamento não deve ficar restrito à pessoa diretamente atingida. “Nós precisamos trabalhar nessa forma coletiva, de que não é só aquela mulher que vai sofrer, mas nós, como coletivo, como comunidade, acabamos sofrendo também com essas situações”, afirma.

Do debate às ações no campus

A segunda Roda ocorre enquanto outras medidas previstas pelo CAV Seguro começam a ser colocadas em prática no campus. Entre essas ações, professora Verônica cita a capacitação realizada sobre o protocolo “Não é Não”. A partir da formação, a proposta é distribuir materiais informativos e identificar profissionais preparados para receber pessoas que relatem situações de violência no ambiente universitário. “A partir disso, a gente vai ter a distribuição dos cartazes e a identificação das pessoas que estão habilitadas para receber vítimas de violência dentro do campus”, detalha.

As Rodas de Conversa também integram as ações permanentes de prevenção. A programação prevê encontros quinzenais para ampliar o acesso a informações sobre violência, assédio, acolhimento e formas de encaminhamento. “O nosso principal objetivo é diminuir casos de assédio moral, diminuir casos de assédio sexual aqui dentro e qualquer tipo de violência que possa estar sendo praticada dentro do campus”, afirma a Diretora de Extensão da Udesc Lages.

A próxima edição está prevista para 21 de outubro, às 11h30, no Salão de Atos do prédio da Administração, com a participação da Rede Catarina. A expectativa da Direção de Extensão é aumentar a presença de estudantes e servidores nas próximas atividades e manter os encontros ao longo do semestre. O CAV Seguro tem o objetivo de manter os temas presentes no cotidiano universitário e de ampliar o conhecimento sobre prevenção, acolhimento e os caminhos disponíveis para quem precisa de orientação ou proteção.


Assessoria de Comunicação da Udesc Lages
Estagiário Matheus Rosa*
E-mail: comunicacao.cav@udesc.br
Telefone: (49) 3289-9130

*sob supervisão da jornalista Carla Simone Doyle Torres
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