Eventos climáticos aprofundam desigualdades educacionais e desafiam políticas públicas, destaca pesquisador da Udesc Esag
Os prejuízos de enchentes ou queimadas costumam ser calculados em casas destruídas, estradas interditadas e perdas econômicas. Mas os impactos também chegam nas salas de aula. Pesquisas coordenadas pelo professor
Marcos Vinicio Wink Junior, do Departamento de Ciências Econômicas da
Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), mostram que a exposição de estudantes a eventos extremos pode provocar perdas de aprendizagem equivalentes a mais de um ano letivo, com efeitos mais severos em escolas de menor nível socioeconômico. Os resultados reforçam a necessidade de incorporar a educação às políticas de adaptação climática e gestão de desastres.
Segundo o professor, que é vinculado ao
Centro de Ciências da Administração e Socioeconômicas (Esag), os prejuízos dos fenômenos climáticos sobre a educação não são aparentes à primeira vista.
“Isso acontece porque escolas de regiões mais ricas conseguem se preparar muito melhor para essas adversidades. Mas quando olhamos para dados de escolas mais pobres, o efeito existe e é forte. Equivale a, pelo menos, 16 meses de aprendizado, podendo chegar a até três anos”, destaca.
Wink Junior analisou como as enchentes de 2008 que atingiram o Vale do Itajaí, em Santa Catarina, afetaram o desempenho de estudantes. Os resultados foram apresentados em julho deste ano no congresso
International Workshops on Public Policy, em Ottawa, no Canadá.
Outro estudo, sobre os efeitos das queimadas em alunos de escolas de todo o território nacional, foi publicado em maio deste ano no
International Journal of Educational Development, um dos principais periódicos científicos da área da educação. O trabalho tem origem na dissertação de mestrado defendida pela aluna
Ana Gabrielle Neves de Oliveira, no
Programa de Pós-Graduação Acadêmico em Administração da Udesc, sob orientação do professor.
Principais resultados
As duas pesquisas identificam reduções estatisticamente relevantes nas notas de alunos após a exposição a desastres ambientais. No estudo sobre queimadas, escolas localizadas em até 500 metros de focos de incêndio tiveram queda de aproximadamente 12 pontos nas notas de Português e Matemática. O efeito equivale a cerca de meio desvio-padrão, uma perda estimada pelos autores entre um ano e meio e dois anos de aprendizagem. À medida que a distância entre a escola e os focos de incêndio aumenta, os efeitos sobre a aprendizagem diminuem e deixam de ser estatisticamente significativos.
O estudo também identificou impactos mais intensos em escolas de menor porte e com menor proporção de professores do ensino fundamental. Segundo os autores, esses resultados reforçam a necessidade de políticas voltadas à continuidade das atividades escolares e à recuperação da aprendizagem.
Já o estudo das enchentes identificou maiores quedas de desempenho entre escolas de baixo nível socioeconômico. Nesses casos, as reduções chegaram a cerca de 16 pontos em Português e Matemática, valor próximo de um desvio-padrão na distribuição das notas.
Na estatística, o desvio-padrão é uma medida que indica o quanto os resultados costumam variar em torno da média. Por isso, perdas de meio desvio-padrão já são consideradas grandes por especialistas da educação. Quando se aproximam de um desvio-padrão inteiro, o impacto é considerado excepcionalmente elevado.
A pesquisa sobre enchentes revelou ainda que as consequências para a educação se concentram nas escolas mais pobres e vulneráveis. Danos à infraestrutura, menor capacidade administrativa para responder ao desastre e escassez de recursos para repor atividades escolares estão entre os mecanismos apontados pelos autores para explicar as perdas de aprendizagem. Nas famílias, a perda de renda, a instabilidade gerada pelo desastre e as dificuldades enfrentadas durante o processo de recuperação econômica também podem comprometer a continuidade dos estudos, apontam as pesquisas.
Essa combinação de fatores contribui para produzir efeitos persistentes sobre o desempenho escolar. Segundo Marcos Vinicio Wink Junior, o impacto de eventos extremos sobre o ciclo de alfabetização pode levar de três a quatro anos para se dissipar.
“Crianças que estavam no primeiro ano, quando a enchente aconteceu, ainda vão ter notas menores do que deveriam quando chegarem ao quinto, porque o aprendizado é uma função contínua e a interrupção dele causa problemas persistentes”, afirma.
Como as pesquisas foram feitas
O estudo sobre a enchente analisou as notas de estudantes do 5º ano do ensino fundamental, enquanto a pesquisa sobre queimadas teve como foco alunos do 9º ano.
Para avaliar se há variações de desempenho, pesquisadores combinaram duas bases de dados principais: o Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), que reúne indicadores de desempenho escolar, e o Censo Escolar, com informações administrativas e a localização das escolas.
Além disso, dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) detectados por satélites foram utilizados para obter registros georreferenciados de focos de incêndio. Isso permitiu à equipe acompanhar as mesmas escolas ao longo do tempo e testar diferentes distâncias de exposição ao calor.
O efeito dos eventos climáticos foi isolado com o uso de modelos estatísticos e econométricos. Eles são capazes de controlar outras características que também influenciam o desempenho de estudantes.
“Não faz sentido comparar uma escola pública de uma região vulnerável com uma escola privada de uma área rica”, explica o professor. “Por isso, nossa estratégia foi comparar escolas com características semelhantes e observar como elas evoluem ao longo do tempo. Assim, conseguimos identificar o efeito específico das queimadas e estimar qual teria sido a trajetória da escola caso ela não tivesse sido exposta ao evento”.
Já a pesquisa sobre enchentes comparou escolas de dois grupos de municípios: as que decretaram estado de calamidade pública com as que não declararam emergência nem calamidade após o desastre de 2008. Modelos estatísticos são usados para controlar as características permanentes das escolas e isolar fatores que afetam todas as unidades em um mesmo ano.
Os testes mostraram que, antes da enchente, os dois grupos apresentavam trajetórias de desempenho muito semelhantes. Segundo a conclusão dos autores, esse resultado reforça que as perdas educacionais foram efetivamente provocadas pelo desastre, e não por diferenças pré-existentes.
Políticas públicas baseadas em evidências científicas
Em 2025, pelo menos 745 mil crianças e adolescentes tiveram o acesso à educação interrompido por eventos climáticos no Brasil, segundo o
Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). No mesmo período, fenômenos extremos geraram
R$ 3,9 bilhões em prejuízos econômicos, concentrados principalmente na saúde pública e na recuperação da infraestrutura urbana.
Para Wink Junior, porém, a resposta do poder público não pode se limitar ao reparo dos danos materiais. “Assim como reconstruímos pontes e estradas, precisamos reconstruir a aprendizagem dos estudantes afetados”, afirma. “Nossos estudos mostram que uma das prioridades é reduzir o tempo de fechamento das escolas”.
Dados que resultam das pesquisas da Udesc Esag podem orientar o trabalho de recuperação pós-desastres. Secretarias de educação, por exemplo, conseguem direcionar melhor quais regiões atingidas devem ser priorizadas para receber recursos de programas de reforço escolar. “Não é uma política cara”, ressalta o professor. “É focalizada”, afirma.
Wink Junior é líder do
Callipolis, grupo de pesquisa vinculado à Udesc Esag que avalia o impacto e a efetividade das políticas públicas. Além da produção acadêmica, o Callipolis realiza ações de extensão. Em 2025, a equipe capacitou e assessorou a Prefeitura de Biguaçu para a elaboração do Plano Municipal pela Primeira Infância.
Contate o pesquisador
Marcos Vinicio Wink Junior é professor no Departamento de Ciências Econômicas e Programa de Pós-Graduação Profissional em Administração da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). Possui doutorado em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com período sanduíche realizado na Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, nos Estados Unidos. Atua nos seguintes temas: avaliação de políticas públicas e métodos econométricos.
E-mail: marcos.winkjunior@udesc.br
Este texto integra o projeto
Udesc+Ciência, produzido pela Secretaria de Comunicação da Udesc com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (
Fapesc).
Assessoria de Comunicação da Udesc
Jornalista Dairan Paul
E-mail: comunicacao@udesc.br
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