Pesquisas expõem desigualdades de gênero nas carreiras científicas; mulheres estão mais suscetíveis a abandonar áreas tecnológicas
Em todas as regiões do país, elas são
minoria nas ocupações ligadas à ciência e tecnologia. Mesmo nos empregos mais bem remunerados, ainda
ganham menos do que os homens. Consequentemente, o tempo de carreira diminui: elas trocam de área ou se veem obrigadas a abandonar a própria profissão.
Para celebrar a força de trabalho feminina em um mercado ainda bastante desequilibrado, a Organização das Nações Unidas instituiu, em 11 de fevereiro, o
Dia Internacional das Meninas e Mulheres na Ciência.
Desigualdades de gênero no segmento científico estão distribuídas homogeneamente pelo Brasil, afirma
Patrícia Bonini, professora do
Departamento de Ciências Econômicas, do
Centro de Ciências da Administração e Socioeconômicas (Esag), na
Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc).
Bonini pesquisa as carreiras STEM (acrônimo em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), postos de trabalho com elevada qualificação técnica. Entre suas características estão a geração de produtos, o avanço tecnológico e a promoção de conhecimento e inovação.
Ocupações STEM possuem maior remuneração comparadas ao restante do mercado de trabalho. Trata-se do “prêmio salarial” - um mecanismo de oferta e demanda que bonifica trabalhadores com habilidades especializadas. “Economistas criaram esse termo para explicar as diferenças de salário devido ao avanço tecnológico e às mudanças na estrutura produtiva”, afirma a professora.
Segundo a
Relação Anual das Informações Sociais de 2021, o STEM representa 1,8% do mercado formal no Brasil – porcentagem baixa quando comparado aos Estados Unidos, com média de 5%. Engloba 184 empregos, conforme a Classificação Brasileira de Ocupações, incluindo cursos tecnológicos de duração menor do que os bacharelados, como análise de desenvolvimento de sistemas, automação industrial, mecatrônica e radiologia.
A ciência brasileira perpetua uma tendência mundial de disparidade de gênero na força de trabalho, a exemplo de países da América do Norte, Europa e Oceania. No Brasil, mulheres compõem
29,45% das ocupações STEM.
A proporção é ainda menor no chamado “núcleo duro” das carreiras científicas (física, matemática e engenharias), onde elas atingem apenas 16%. A diferença ocorre porque o grupo total das STEM engloba áreas como biologia e psicologia, nas quais elas têm participação maior do que os homens, afirma Bonini.
Apesar da desigualdade de gênero padrão, a professora detalha, em
artigo, algumas nuances entre os estados brasileiros. Norte e Nordeste são as regiões em que há mais empregos STEM fora do “núcleo duro”, o que se traduz no melhor equilíbrio de mulheres do país (36,4% e 34,6%), acima da média nacional de 29,5%. Sul é a região com menor participação feminina no segmento.
Em contrapartida, ocupações mais bem remuneradas, como engenharias, computação e tecnologia da informação, permanecem no eixo Sul e Sudeste, que concentram mais de 80% das carreiras STEM.
As variações ocorrem porque o desenvolvimento das atividades de ciência e tecnologia está relacionado à distribuição regional de renda e produto,
explica Bonini. Ou seja, estados com maior dinamismo econômico possuem economias mais fortemente baseadas em atividades STEM.
Contexto catarinense
De acordo com a
Classificação Brasileira de Ocupações, Santa Catarina possuía 131 postos de trabalho STEM em 2017. Similar à economia estadunidense, o mercado concentra-se em duas áreas principais, computação e engenharias, com crescimento recente no número de vagas em biologia, biomedicina e pesquisa científica nas engenharias e tecnologia.
A desvantagem salarial entre homens e mulheres tende a ser menor nas carreiras STEM. Essa diferença diminui progressivamente em Santa Catarina ao longo da década analisada por Bonini. Em 2010, para cada R$ 1 do salário de homens em ocupação STEM, a média das mulheres no mesmo grupo era de R$ 0,75. Sete anos depois, o desequilíbrio é menor: elas recebem R$ 0,89.
Florianópolis, Blumenau e Joinville destacam-se como três polos tecnológicos com alta representatividade STEM. Indústrias do setor têxtil e metal mecânico, empresas de pequeno e médio porte de serviços de
software e
hardware, e incubadoras tecnológicas ligadas a universidades são exemplos de como a força de trabalho especializada se distribui no estado.
Apesar do crescimento em ciência e tecnologia, o mercado de trabalho catarinense ainda tem dificuldade para empregar mulheres cientistas. Entre 2008 e 2017, a participação feminina nas ocupações STEM cresceu menos de 2%.
Para se ter uma ideia, o cargo de pesquisador de engenharia em instituições ou empresas, que figura no topo das médias salariais entre os homens, não tinha representante feminina no estado até 2013. Tecnologia de informação é outra carreira com enorme desequilíbrio de gênero - em Santa Catarina, elas representam 24,4% da força de trabalho. Paradoxalmente, é o posto de trabalho no qual elas possuem menor desvantagem salarial frente aos homens, chegando até mesmo a superá-los entre 2012 e 2015.
Abandono da carreira
A
análise de Bonini também revela que há mais pessoas do sexo feminino formadas em cursos STEM do que atuantes na área. Nas três principais universidades do estado (Udesc, Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC e Universidade do Vale do Itajaí – Univali), o percentual de concluintes chega a 37%; apenas 21%, contudo, ocupam postos de trabalho no segmento científico e tecnológico.
Uma das razões para a discrepância é porque a formação no ensino superior não implica necessariamente a ocupação no posto de trabalho, frisa a professora.
O próprio conceito de STEM também explica, em parte, essa diferença. São classificados como tal os ingressantes em cursos de licenciatura e bacharelado – contudo, atividades de ensino não são consideradas, pois não geram produtos tecnológicos. Por isso, uma graduanda pode concluir um curso STEM, como o de Matemática, mas trabalhar em postos de trabalho não-STEM, como professora.
Outro motivo diz respeito ao abandono ou interrupção da carreira científica, decisão mais comum para as mulheres. A tendência, já observada em países como
Reino Unido, pode ser resultado da dificuldade em conciliar a exigente rotina dos empregos STEM aos papeis de gênero costumeiramente atribuídos a elas.
Conforme já apontado por pesquisadoras como a filósofa Silvia Federici, a socióloga Arlie Hotschild e a historiadora Londa Schiebinger, mulheres muitas vezes precisam acumular jornadas de trabalho duplas, somando o trabalho formal às responsabilidades familiares e do lar.
Estratégias institucionais, como licenças parentais e a reavaliação sobre critérios de produtividade, são relevantes para minimizar as assimetrias de gênero.
Pesquisa nas escolas de Florianópolis
Segundo o
Censo da Educação Superior 2023, mulheres representam 59% das ingressantes no ensino superior brasileiro. O percentual aumentou 138,6% desde 2013.
Com dados de 2015 das três principais universidades catarinenses (Udesc, UFSC e Univali), a pesquisa de Bonini indicou forte contraste na participação feminina em cursos STEM, como tecnologia da informação (13%), engenharia elétrica (12%) e engenharia mecânica (8%). A participação é maior em matemática e ciências biológicas, nas quais elas tendem a seguir, após a formação, uma carreira não-STEM, de ensino.
Por conta dessa disparidade, a professora estuda agora quais determinantes sociais estão por trás do ingresso e permanência da força de trabalho feminina na carreira científica.
“Meninas raramente veem mulheres trabalhando na engenharia, apertando parafusos, fazendo códigos. Elas entram em uma sala de aula de curso STEM do núcleo duro e se sentem mal porque aquilo é um exército masculino e só tem uma ou duas mulheres”, reflete Bonini. “É difícil para elas. Aquele ambiente tem uma linguagem muito masculina, o que talvez não as faça se sentir à vontade”.
A próxima etapa da pesquisa envolve a exibição de material didático audiovisual sobre cientistas STEM - tanto homens quanto mulheres - para alunos de ensino médio da Grande Florianópolis. Após, os participantes responderão a um questionário.
“O objetivo é testar a hipótese de que a exposição a modelos de referência pode influenciar garotas em fase de escolha de carreira”, explica Bonini.
Neste momento, a coordenadora do estudo está em contato com a Secretaria da Educação do governo estadual para obter autorização das visitas às escolas públicas. A expectativa da equipe, que conta com três alunas da graduação, é de realizar um estudo piloto em fevereiro de 2026.
Em fase de finalização, o vídeo deve contar com a participação de cientistas como a astrônoma
Rosaly Lopes – brasileira homenageada no Guiness Book como a maior descobridora de vulcões ativos do universo – e a professora do curso de Física e reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
Márcia Barbosa – reconhecida internacionalmente por pesquisas sobre moléculas de água.
Para Bonini, os resultados tanto deste experimento quanto dos estudos anteriores podem contribuir para fundamentar políticas públicas de incentivo à participação e permanência da força de trabalho feminina na ciência.
Iniciativas da Udesc
Atualmente, o Brasil conta com programas específicos de fomento (como o
Mulher e Ciência). Chamadas públicas de editais e projetos de extensão universitários também são incentivos.
A Udesc conta com três iniciativas que visam fomentar o interesse de meninas e mulheres pela ciência, em especial as carreiras STEM.
O
Laboratório de Inovação e Tecnologia (Labtec), da Udesc Balneário Camboriú, mantém dois projetos: o
Tech Delas e o
Meninas Cientistas.
Tech Delas é um curso online gratuito, com duração de um ano, para formar mulheres no mercado de desenvolvimento de
software. É oferecido em parceria com a Prefeitura de Balneário Camboriú, e a terceira edição, em andamento, deve finalizar em setembro de 2026.
De acordo com Luara Peterie, organizadora do projeto e aluna de Engenharia de Petróleo na Udesc Balneário Camboriú, o Laboratório está em contato com novos parceiros para expandir a oferta do curso a diferentes públicos-alvo. Mais de 300 inscrições já foram atingidas em uma única edição.
“Há relatos de participantes que realizaram transição de carreira, incluindo uma participante da área do Direito que, após a conclusão do curso, migrou para a área de tecnologia e atua profissionalmente com programação até os dias atuais”, afirma Peterie.
Voltado a jovens de 13 a 14 anos, o Meninas Cientistas oferta aulas práticas e interativas nas escolas de Balneário Camboriú sobre informática básica, conceitos de
hardware e
software, sistemas operacionais, navegação na internet, organização de arquivos e uso de programas básicos. O objetivo é desenvolver habilidades tecnológicas essenciais e preparar as jovens para desafios acadêmicos.
Em 2025, a equipe participou do
programa Caça Asteroides, que identificou 22 corpos celestes classificados como preliminares. Marina Leite, professora no Meninas Cientistas e aluna de Engenharia de Petróleo na Udesc Balneário Camboriú, avalia que o último ano foi “muito gratificante, principalmente por acompanhar o desenvolvimento das alunas e ver o quanto cresceram durante o programa”. Para 2026, a expectativa é de aprimoramento do projeto e continuidade das ações.
Por fim, o
STEAMulando Futuros, da Udesc Joinville, promove ações na educação básica para capacitar meninas nas áreas de pensamento computacional e apresentá-las a referências femininas em STEM. O projeto impactou diretamente 75 estudantes de escolas catarinenses em 2025, informam Joice Jeronimo e Laís Van Vossen (gerentes de projeto e alunas de pós-graduação da Udesc) e Isabela Gasparini (coordenadora e professora de Ciências da Computação). Também oferecem mentorias a alunas mulheres de cursos STEM da Udesc, conectando-as a profissionais da academia e da indústria.
Em novembro de 2025, com o apoio de empresas e instituições parceiras, a equipe realizou um
hackathon no qual as estudantes da educação básica apresentaram projetos voltados à inclusão e à permanência de mulheres nas carreiras STEM. Para este ano, esperam continuar contribuindo para a construção de trajetórias mais acessíveis e sustentáveis nas áreas de STEM.
O conjunto de ações da Udesc busca preencher uma lacuna de representação feminina em áreas científicas ainda bastante masculinas. Na avaliação da professora Patrícia Bonini, atrair a participação de mulheres para cursos STEM é também apostar na qualificação do desenvolvimento tecnológico. “A diversidade é muito importante para a inovação. Se você perde um grupo de pessoas, está perdendo talentos”.
Contate a pesquisadora
Patrícia Bonini é professora da Udesc no Departamento de Ciências Econômicas do Centro de Ciências da Administração e Socioeconômicas. Possui doutorado em Economia pela Universidade de Birmingham (Reino Unido). Atua nos seguintes temas: carreiras de ciência e tecnologia; gap salarial de gênero; escolhas profissionais das mulheres.
E-mail: patricia.bonini@udesc.br
Este texto integra o projeto
Udesc+Ciência, produzido pela Secretaria de Comunicação da Udesc com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (
Fapesc).
Assessoria de Comunicação da Udesc
Jornalista Dairan Paul
E-mail: comunicacao@udesc.br
Telefone: (48) 3664- 8006