Arquivos Indisciplinados é uma residência artística do Museu da Escola Catarinense - MESC/UDESC dedicada à investigação e à ativação crítica de seu acervo por meio de práticas artísticas contemporâneas.
Realizada entre agosto e setembro de 2026, a residência reuniu artistas com diferentes trajetórias, linguagens e campos de investigação para desenvolver pesquisas em diálogo com mobiliários escolares, fotografias, documentos institucionais, livros, materiais didáticos, objetos, registros e demais conjuntos relacionados à história da educação em Santa Catarina.
Mais do que tomar o arquivo como fonte de imagens ou documentos, a proposta partiu da compreensão de que todo arquivo é também resultado de escolhas, aquilo que foi preservado, classificado, nomeado e institucionalizado convive com ausências, silenciamentos, vestígios, erros, apagamentos e experiências que permanecem à margem dos discursos oficiais.
Nesse sentido, indisciplinar o arquivo significa colocá-lo novamente em movimento. Perguntar o que os documentos contam, mas também o que deixam de contar. Observar como determinados corpos, práticas educativas, territórios e modos de vida foram registrados [ ou não registrados ] e experimentar outras formas de relação com esses materiais.
Ao longo de dois meses, o acervo tornou-se campo de pesquisa para trabalhos que atravessam questões como memória, território, colonialidade, disciplina escolar, presença e ausência negra, gênero, experiência feminina, trabalho docente, corpo, tecnologia, erro, classificação, linguagem e materialidade documental.
Durante o projeto, a Sala Mutações deixou de operar apenas como espaço expositivo para assumir simultaneamente as funções de ateliê compartilhado, laboratório de pesquisa, espaço de encontro, ambiente de experimentação e lugar de apresentação pública dos processos.
A organização do espaço foi sendo modificada à medida que as pesquisas avançavam. Documentos consultados, anotações, imagens, livros, desenhos, testes de materiais, objetos, referências, protótipos e fragmentos de trabalhos passaram a conviver no mesmo ambiente.
Esse caráter processual foi uma escolha da residência. Em vez de separar rigidamente pesquisa, produção e exposição, Arquivos Indisciplinados tornou visíveis as etapas intermediárias do trabalho artístico [as perguntas ainda sem resposta, as mudanças de percurso, os materiais descartados, as associações provisórias e as decisões tomadas coletivamente].
A própria Sala Mutações tornou-se, assim, parte do método de trabalho da residência, permitindo aos artistas experimentarem diversas possibilidades de montagem e construção de seus trabalhos no espaço.
A seleção de Arquivos Indisciplinados reuniu sete projetos, sendo seis individuais e uma proposição desenvolvida em dupla, totalizando oito artistas residentes. As propostas foram escolhidas por suas possibilidades de interlocução com o acervo do MESC e pelas diferentes perspectivas que colocam em relação arte contemporânea, educação, memória e arquivo.
A pesquisa de Celaine Refosco aproxima memória, paisagem, território e transformações socioambientais. Na residência, a artista voltou-se especialmente para documentos, mapas, materiais educativos e narrativas capazes de revelar diferentes formas de representar, ensinar e transformar o território catarinense.
Sua investigação parte das relações entre história coletiva e memória pessoal, natureza e colonialidade, colocando em diálogo documentos do acervo e questões relacionadas ao Meio-Oeste catarinense, ao Vale do Rio do Peixe e aos processos de exploração e transformação da paisagem.
Artista, professor e pesquisador, Guilherme Bruschi trabalha nas aproximações entre arte e educação. Durante a residência, sua pesquisa concentrou-se principalmente sobre os materiais gráficos da escola, cadernos de caligrafias e ditados e as fotografias de turma.
Carteiras, mesas, livros, apostilas, cadernetas, placas e registros fotográficos são observados não apenas como objetos históricos, mas como estruturas relacionadas à organização da escola e dos corpos. A investigação procura perceber tanto os dispositivos de ordenamento e disciplina quanto gestos, posturas e pequenas recusas capazes de desestabilizar a representação institucional.
Lucas Polidoro e Rita Oyakanmi
Em uma pesquisa desenvolvida conjuntamente, Lucas Polidoro e Rita Oyakanmi investigam as presenças e, especialmente, as ausências negras no acervo do Museu da Escola Catarinense.
Partindo de fotografias escolares, retratos, documentos, listas e narrativas institucionais, a pesquisa pergunta quem aparece nas imagens da história da educação catarinense, quem permaneceu fora delas e de que maneira as lacunas do arquivo podem ser interrogadas pela prática artística.
Memória, ancestralidade, território, representação, colonialidade e fabulação atravessam um processo que aproxima fotografia, instalação, escrita, imagem e outras experimentações.
A investigação de Osmar Domingos parte dos sistemas utilizados para organizar, classificar e produzir conhecimento. No MESC, seu interesse deslocou-se especialmente para aquilo que aparece nas margens dos arquivos: erros, rabiscos, correções, páginas danificadas, marcas de uso, ruídos, improvisações e histórias incompletas.
Em sua pesquisa, o acervo pode ser compreendido como uma espécie de ecossistema, atravessado por documentos, acidentes, esquecimentos e também por elementos que escapam às categorias originalmente estabelecidas. Escultura, eletrônica, programação, desenho e som integram seu campo de experimentação.
ciber_org (Nova Lima, 1994) é artista transmídia, com mestrado em Artes Visuais pela UDESC. Sua produção articula corpo, imagem, memória e tecnologia, trabalhando com vídeo, instalação, performance, escultura, fotografia, escrita e procedimentos digitais. Durante a residência no MESC, ciber_org tem pesquisado diferentes conjuntos do acervo, especialmente livros didáticos e documentais, publicações relacionadas à formação do Brasil, estudos artísticos e diapositivos sobre navegação. A partir desse levantamento, vem construindo uma pesquisa em torno dos ventos, pensando o que eles transportam entre diferentes territórios, tempos e povos. A pesquisa observa também o que circula por meio das palavras e dos discursos, o que é levado de um lugar a outro, o que permanece, o que se transforma e quais contradições acompanham esses deslocamentos. A partir do encontro com livros sobre história, território e navegação, ciber_org aproxima a ideia de vento dos processos de formação do país e das disputas presentes nas formas de narrar essa história.
Os primeiros estudos para a exposição em outubro partem desse processo, onde ciber_org vem desenhando uma instalação para o vão central do hall do MESC, utilizando grandes formas próximas às velas de veleiro. A proposta considera diretamente a arquitetura do museu, sua verticalidade e circulação, colocando essas estruturas suspensas em relação com as ideias de deslocamento, orientação e transmissão que atravessam a pesquisa. Entre as questões que acompanham o trabalho está a possibilidade de pensar o que os ventos carregam entre passado, presente e futuro [ palavras, discursos, ações e modos de compreender um território]. O que é trazido, o que é levado e o que se modifica nesse percurso?
Em sua prática, Talita Warnava transita entre fotografia, performance, narrativa visual e processos de escuta. Sua investigação articula memória, identidade, território, corpo, pertencimento e experiência feminina.
No acervo do MESC, sua atenção dirige-se a pequenos vestígios de presença [ professoras, alunas, mães, funcionárias], nomes, anotações e marcas cotidianas que muitas vezes permanecem nas bordas das narrativas históricas institucionalizadas.
Esses materiais são aproximados de experiências contemporâneas de mulheres e territórios, estabelecendo relações entre memória, imagem, escuta e construção de narrativas.
Artista, escritora, performer e professora, Telma Scherer desenvolve uma pesquisa atravessada pelas relações entre escrita, artes visuais e docência.
Durante a residência, sua investigação voltou-se especialmente para professores e professoras presentes no acervo, com atenção ao trabalho docente, aos afetos, conflitos, silenciamentos e formas de resistência que podem atravessar a experiência de ensinar.
Livros didáticos, enciclopédias, dicionários, documentos, fotografias e marcas de leitura tornam-se materiais para procedimentos de escrita, colagem, performance, vídeo e experimentação textual.
Além dos artistas selecionados, Arquivos Indisciplinados conta com a participação das artistas convidadas Andréa Hygino e Ana Raylander Mártis dos Anjos, cujas pesquisas estabelecem interlocuções diretas com questões presentes no acervo e no projeto curatorial da residência.
Artista visual, arte-educadora e professora, Andréa Hygino desenvolve uma pesquisa sobre ambiente escolar, aprendizagem, disciplina, repetição e desobediência.
Sua participação em Arquivos Indisciplinados ampliou as discussões sobre mobiliário escolar, organização do espaço educativo e disciplinamento dos corpos. Entre os trabalhos apresentados durante sua passagem pelo MESC estavam Protótipos Inadequados, Série Mordido, Prova de Estado e a cadeira, o Levante, a ginga, obras que deslocam objetos, gestos e procedimentos relacionados à experiência escolar.
A relação entre corpo, mobiliário, aprendizagem, obediência e desobediência estabelece uma conexão direta entre sua produção e diferentes conjuntos preservados pelo Museu da Escola Catarinense.
Ana Raylander Mártis dos Anjos
Ana Raylander Mártis dos Anjos é artista e pesquisadora e trabalha entre história coletiva e biografia, educação, escrita, arquivo e crítica institucional.
Sua produção utiliza texto, documento, instalação, vídeo, performance, escultura e fotografia para investigar processos de construção histórica, com atenção especial à experiência afro-brasileira e às estruturas relacionadas ao projeto moderno-colonial.
Sua participação em Arquivos Indisciplinados integra a etapa final da residência, aprofundando as discussões sobre arquivo, memória, educação, colonialidade, presença e produção de narrativas que atravessaram os processos desenvolvidos pelos artistas ao longo dos dois meses de trabalho.
Em Arquivos Indisciplinados, os trabalhos não antecederam a residência. Eles foram sendo constituídos por meio da permanência dos artistas no museu e do contato continuado com seu acervo.
Durante agosto e setembro, os artistas realizaram pesquisas em diferentes conjuntos documentais e tridimensionais, selecionaram imagens e documentos, produziram registros, fizeram anotações, testaram materiais, discutiram hipóteses, modificaram propostas e compartilharam seus percursos com os demais participantes.
A residência foi estruturada a partir de uma combinação entre pesquisa individual, acompanhamento curatorial, encontros coletivos e interlocução entre os próprios artistas.
A proposta não exigia fidelidade literal aos projetos apresentados na inscrição. Ao contrário, as pesquisas permaneceram abertas às transformações provocadas pelo contato com o acervo, pelo espaço, pelas conversas e pelas descobertas realizadas durante a própria residência.
Os encontros coletivos realizados na Sala Mutações acompanharam o desenvolvimento das pesquisas durante os dois meses de residência.
Neles, artistas apresentaram descobertas realizadas no acervo, discutiram referências e problemas encontrados durante os processos, compartilharam testes e receberam contribuições do grupo. As conversas também permitiram construir relações entre pesquisas que inicialmente partiam de questões muito distintas.
O acompanhamento curatorial realizado por Priscila Costa Oliveira ocorreu ao longo de todo o processo, articulando pesquisa no acervo, conversas individuais e coletivas, acompanhamento das proposições, interlocução com as artistas convidadas e construção conjunta da exposição.
Mais do que adequar trabalhos a uma exposição previamente definida, a curadoria foi sendo construída em diálogo com aquilo que apareceu ao longo da residência.
Leituras Públicas de Portfólio
As Leituras Públicas de Portfólio integraram a programação de Arquivos Indisciplinados como momentos de compartilhamento dos percursos artísticos dos residentes e de aproximação entre os processos da residência e o público.
Mais do que apresentações de trabalhos concluídos, as leituras abriram espaço para conversar sobre escolhas, referências, dúvidas, mudanças de percurso e questões que atravessam a produção de cada artista, sendo uma das ações formativas previstas pela residência.
Participaram do primeiro encontro:
As apresentações permitiram aproximar pesquisas bastante diferentes: corpo, imagem e tecnologia; território e transformações ambientais; ancestralidade e narrativas historicamente silenciadas; matéria, memória, identidade e registro.
A segunda leitura, inicialmente programada para 29 de agosto e remarcada em razão das condições climáticas, reuniu:
O encontro apresentou pesquisas que atravessam sistemas de classificação, ficção e tecnologia; fotografia, memória e território; arte e educação; escrita, corpo, performance e experiência docente.
As Leituras Públicas de Portfólio funcionaram também como parte do próprio processo formativo da residência [ falar sobre o trabalho, colocá-lo diante dos outros e responder a perguntas ] tornou-se uma maneira de perceber relações, impasses e possibilidades ainda em desenvolvimento.
A segunda metade de setembro marca uma transformação importante na Sala Mutações.
As estações de trabalho começam a ser desmontadas e o espaço que durante dois meses funcionou como ateliê, arquivo provisório e laboratório passa gradualmente a ser reorganizado para receber a exposição.
No dia 19 de setembro, o grupo realizou um encontro coletivo dedicado às definições de expografia e às relações entre os trabalhos no espaço. A partir desse momento, inicia-se a etapa final de produção, montagem e construção da exposição.
Em 21 de setembro, a residência recebe a artista convidada Ana Raylander Mártis dos Anjos, integrando as atividades que antecedem a montagem.
Abertura: 1º de outubro de 2026, às 19h
Visitação: 1º a 31 de outubro de 2026
Sala Mutações - Museu da Escola Catarinense
A exposição apresenta trabalhos e pesquisas desenvolvidos durante a residência em diálogo com o acervo do MESC.
Participam:
Com linguagens, procedimentos e perspectivas distintas, os trabalhos aproximam documentos e fabulação, materialidades escolares e experiências corporais, memória institucional e histórias não registradas, tecnologias contemporâneas e objetos históricos.
O que os aproxima não é uma resposta comum sobre o arquivo, mas justamente a recusa de tratá-lo como estrutura fechada, o acervo do MESC é um arquivo vivo e isso fica explícito nos trabalhos.
Arquivos Indisciplinados propõe permanecer diante das fraturas do arquivo [ aquilo que ele conserva, aquilo que organiza, aquilo que permite conhecer e também aquilo que omite]. Ao transformar esses materiais em campo de investigação artística, a exposição devolve ao acervo perguntas que não estavam necessariamente previstas em suas classificações.
Residência Artística Arquivos Indisciplinados
Museu da Escola Catarinense - MESC/UDESC
Florianópolis, Santa Catarina
2026
Curadoria e acompanhamento
Priscila Costa Oliveira
Artistas residentes
Celaine Refosco
Guilherme Bruschi
Lucas Polidoro
Rita Oyakanmi
Osmar Domingos
ciber_org
Talita Warnava
Telma Scherer
Artistas convidadas
Andréa Hygino
Ana Raylander Mártis dos Anjos
Equipe de apoio
Sofia Cavalheiro
Carlos Eduardo Pereira de Oliveira
Gabriel Barroso Zendron
Maria Izabelle De Carvalho Silva
Hugo Seraphin
Realização
Museu da Escola Catarinense - MESC
Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC
Apoio
FAPESC - Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina
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