Após o sucesso do Desfile Amputação em Movimento - Moda e Inclusão no ano passado, a iniciativa dos cursos de Fisioterapia e Moda da Udesc apresentou coleções de peças adaptadas para pessoas amputadas no Future of Fashion Show, evento de moda inclusiva realizado durante a London Fashion Week, que ocorre duas vezes por ano e é uma das quatro maiores e mais importantes semanas de moda do mundo, ao lado de Nova York, Paris e Milão.
A presença da universidade nesse evento internacional foi possível graças à organização Bullock Inclusion, que é liderada pela empresária Samanta Bullock na Inglaterra e havia prestado consultoria ao Desfile Amputação em Movimento - Moda e Inclusão em 2025.
A Udesc Cefid foi representada na London Fashion Week pela coordenadora do Ramp, professora Soraia Cristina Tonon da Luz. "Participar da London Fashion Week, em desfile promovido pela Bullock Inclusion, foi uma experiência inesquecível — e vivê-la ao lado das nossas alunas do Ceart tornou tudo ainda mais especial."
"Chegar a Londres com esse projeto foi emocionante", diz a professora Soraia, que integra o Departamento de Fisioterapia e o Programa de Pós-Graduação em Fisioterapia (PPGFT) na Udesc Cefid. "O local era maravilhoso, a organização da Bullock Inclusion foi impecável e viver tudo isso ao lado das nossas alunas foi especial demais."
A docente afirma, porém, que "o que mais me marcou foram os sorrisos. O sorriso das nossas estudantes, vendo um projeto construído no Brasil ganhar uma dimensão internacional. E o sorriso das modelos — muitas delas pessoas amputadas — que desfilaram lindamente, ocupando aquela passarela com presença, beleza e confiança. Naquele momento, tive ainda mais certeza de que reabilitação também é criar possibilidades para que as pessoas sejam vistas além da sua deficiência".
A comitiva da Udesc Ceart foi liderada pelas professoras Andressa Santos Turcatto e Isadora Heusi Santos e contou com coleções autorais de 26 estudantes e egressos do curso de Moda.
As estudantes Alexandra de Jesus, Gabriella Cruz, Giulia Mariot e Valentina Gollo, por exemplo, estiveram no evento e apresentaram a coleção "Conduction", que tem sustentabilidade, devaneios e tecnologia como pilares.
Alexandra afirma que a experiência ampliou suas possibilidades de criação dentro da moda. "Nós sonhamos muito com a ideia de estarmos inseridos em uma semana de moda internacional. A oportunidade reforça a importância e a qualidade do nosso curso", aponta. Confira mais detalhes sobre as coleções.
A Udesc Ceart também prestou apoio ao Ramp na produção do vídeo sobre o projeto que foi exibido na London Fashion Week.
Reabilitação em sintonia com vida real
A professora Soraia conta que os sorrisos das modelos na London Fashion Week a fizeram se lembrar de um dos pacientes do Ramp, Dionísio Ramilo.
"Ele perdeu uma perna, mas continuou cultivando aquilo que ama: seu jardim. Em nosso projeto, caminhou pela passarela [no desfile de 2025] usando uma jaqueta inspirada nas folhas, no verde, naquilo que continua crescendo. Ele nos disse: 'Espero ser um exemplo para outras pessoas que também perderam uma perna'. Talvez essa seja uma das maiores potências da reabilitação: transformar uma experiência individual em possibilidade para outras pessoas."
Assim, a docente ressalta que a experiência em Londres "não foi apenas um desfile. Foi a materialização de uma ideia que o Ramp vem construindo há anos: a reabilitação precisa acompanhar a vida real".
"Se a pessoa quer caminhar, nós trabalhamos para que ela caminhe. Se quer praticar esporte, trabalhar, estudar, viajar, relacionar-se, vestir-se, desfilar ou simplesmente sentir-se bonita diante do espelho — tudo isso também faz parte da reabilitação. Porque reabilitar não é preparar alguém apenas para voltar a andar. É preparar alguém para voltar a viver. E essa experiência só foi possível porque muitas pessoas acreditaram nessa ideia e construíram esse caminho conosco."
Ampliação de um conceito
A professora Soraia Cristina Tonon da Luz trabalha com pessoas amputadas há mais de 25 anos e coordena o Ramp desde que o projeto começou, em 2012. As atividades do Ramp incluem atendimentos presenciais na Udesc Cefid, no Bairro Coqueiros, em Florianópolis, e online para pessoas amputadas, além de grupo de estudos e seminário científico.
Os atendimentos são voltados a pessoas que sofreram amputação de membros e necessitam de reabilitação tanto no ambiente hospitalar quanto no ambiente ambulatorial, antes ou depois de começar a usar a prótese.
O Ramp atende cerca de 50 pessoas a cada semestre, promovendo a atenção à saúde dos participantes de forma humanizada e buscando o cuidado integral, com avaliações físico-funcionais, avaliações biomecânicas e atendimento específico individual e em grupo.
"Ao longo desses anos, aprendi que reabilitação precisa ser muito maior do que recuperar movimento, força, equilíbrio ou marcha. Reabilitar é também recuperar autonomia, identidade, autoestima, participação social e a possibilidade de voltar a ocupar os espaços da vida", diz Soraia.
"É por isso que o Ramp vem ampliando, na prática, o próprio conceito de reabilitação. Foi da escuta dos nossos pacientes que percebemos algo aparentemente simples, mas profundamente importante: vestir-se também fazia parte dos desafios cotidianos após uma amputação."
Segundo a professora, esse conceito ampliado sobre a reabilitação possibilitou a aproximação da Fisioterapia da Udesc Cefid com a Moda da Udesc Ceart e também com o Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (Ufsc), por meio do projeto de extensão Jornalismo e Ação Comunitária (JAC), que foi outro parceiro do Desfile Amputação em Movimento - Moda e Inclusão em 2025.
"São três linguagens diferentes com objetivos comuns: dignidade, autonomia e pertencimento", enfatiza Soraia.
Agradecimentos
A professora Soraia pôde participar da London Fashion Week com recursos do Programa de Apoio à Cultura (Procult), da Pró-Reitoria de Extensão, Cultura e Comunidade da Udesc (Proex).
"Meu agradecimento especial ao Procult pelo apoio e por possibilitar que esse projeto ultrapassasse fronteiras; à equipe do Ramp, que diariamente transforma a reabilitação em prática, cuidado e possibilidades; aos nossos pacientes, que nos ensinam, todos os dias, que reabilitar é muito mais do que aquilo que está nos livros; às alunas e aos professores envolvidos, que colocaram conhecimento, criatividade e sensibilidade nesse projeto; e a todos que, de alguma forma, fizeram parte dessa trajetória", destaca.
A docente também agradece, de maneira especial, "à Bullock Inclusion, por nos receber em Londres com tanto cuidado e por acreditar que inclusão também pode ocupar uma passarela".
"Volto dessa experiência com uma certeza ainda maior: a reabilitação não termina quando a pessoa volta a andar. Ela continua quando essa pessoa volta a viver, participar, escolher, sonhar e ocupar o mundo. A reabilitação vai além do corpo, e a inclusão deve estar em movimento", conclui a professora Soraia.
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