Um novo projeto acadêmico vem ganhando destaque ao propor uma forma inovadora de compreender e enfrentar desafios socioambientais cada vez mais presentes na sociedade contemporânea. Intitulado “Transformando Organizações em Resposta aos Problemas Socioambientais Perversos”, a iniciativa liderada pela professora Graziela Dias Alperstedt, do
Centro de Ciências da Administração e Socioeconômicas (Esag) da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) tem como objetivo estudar como organizações podem atuar de maneira colaborativa diante de problemas complexos, conhecidos na literatura como wicked problems, que não podem ser resolvidos por soluções simples nem por um único ator.
A proposta tem apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação de Santa Catarina (Fapesc) e funciona como um grande “guarda-chuva” que integra pesquisas desenvolvidas por estudantes de graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado, todos interessados na relação entre organizações e problemas socioambientais.
A partir da perspectiva da inovação social, o projeto analisa como redes de colaboração entre diferentes atores (organizações, poder público, sociedade civil e indivíduos) podem gerar respostas mais eficazes a essas problemáticas.
Segundo a coordenação do projeto, os chamados problemas perversos são aqueles marcados por múltiplas causas e consequências interligadas, exigindo a articulação de diferentes saberes, competências e visões de mundo. “Vivemos em uma sociedade de organizações, mas nenhuma delas, isoladamente, possui todas as condições necessárias para lidar com problemas tão complexos.
A colaboração é indispensável”, destaca a professora responsável.
Exemplos práticos e impacto social
Entre os estudos em andamento, um deles analisa a atuação de uma organização dedicada ao resgate de animais em situações de enchentes, como as ocorridas recentemente no Rio Grande do Sul.
O foco está em compreender como essa organização se mobiliza e articula outros atores para enfrentar as consequências socioambientais desses desastres.
Outro exemplo é uma pesquisa sobre a identidade profissional de pescadores artesanais, que têm enfrentado dificuldades para manter sua atividade diante da pesca industrial predatória.
O estudo investiga como essa perda de identidade impacta a cultura local, especialmente em regiões como Florianópolis e o litoral catarinense, onde a pesca artesanal faz parte da história e do modo de vida das comunidades.
Pesquisa, extensão e formação integrada
O projeto também se destaca pela forte integração entre pesquisa e extensão universitária. Visitas de campo, encontros com organizações e articulação de parcerias fazem parte da rotina dos pesquisadores.
Recentemente, o grupo realizou visitas a projetos de conscientização ambiental em Florianópolis, envolvendo alunos de diferentes níveis acadêmicos.
Essas atividades permitem que os estudantes saiam do campo teórico e compreendam, na prática, como funcionam as redes de colaboração voltadas ao bem-estar animal, tema alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU.
Visitas técnicas fortalecem pesquisa e engajamento coletivo
No dia 28 de janeiro de 2026, o grupo de pesquisa LEDs - Laboratório de Educação para a Sustentabilidade e Inovação Social - realizou visitas ao Projeto Tamar, na Barra da Lagoa, e ao Projeto Lontra, na Lagoa do Peri, em Florianópolis. As atividades integram as pesquisas do projeto voltadas ao bem-estar animal e às organizações que atuam nessa área.
Pela manhã, o grupo visitou o Projeto Tamar, que atua na mitigação dos impactos da pesca sobre as tartarugas marinhas. O Centro de Visitantes tem como foco a sensibilização e a conscientização ambiental por meio da visitação de turistas, grupos e escolas. O espaço está localizado a cerca de 50 metros do mar, na Praia da Barra da Lagoa, em uma área de aproximadamente 5 mil metros quadrados.
No período da tarde, a visita foi ao Projeto Lontra, gerido pelo Instituto Ekko Brasil, um centro de pesquisa e conservação localizado na Lagoa do Peri, no sul da ilha. Focado na proteção da lontra neotropical, o local atua na reabilitação de animais, na educação ambiental e na visitação orientada.
A visita in loco foi fundamental não apenas para a coleta de dados técnicos e científicos, mas também para fortalecer o engajamento coletivo em torno da conservação das espécies estudadas. A experiência permitiu aos estudantes observar a pesquisa em ação, aproximando pesquisadores, comunidade local e organizações envolvidas, além de possibilitar o estabelecimento de contatos para futuras parcerias.
As visitas também evidenciaram a importância da educação ambiental para o desenvolvimento da consciência crítica dos estudantes. A observação direta de como resíduos descartados em terra firme impactam a saúde das tartarugas marinhas reforça que os problemas enfrentados pelas espécies não se restringem ao ambiente marinho, afetando igualmente a qualidade da água, do ar e a vida humana.
Contribuições acadêmicas e sociais
Além de contribuir para o avanço teórico nas áreas de administração, inovação social e sustentabilidade, o projeto busca gerar impactos concretos para a sociedade.
As pesquisas produzem subsídios para o poder público, fortalecem organizações que atuam na linha de frente dos problemas socioambientais e promovem a aproximação entre atores que, muitas vezes, enfrentam desafios semelhantes sem sequer se conhecer.
Iniciado em meados do ano passado, o projeto segue em expansão e já inspira novas ações para este ano, como a aproximação com o diretório acadêmico e a inclusão de calouros em atividades de campo.
A iniciativa reforça o papel da universidade como espaço de articulação, diálogo e construção coletiva de soluções para os desafios complexos do tempo atual.
Esta reportagem integra a série Ciência que transforma, da Udesc Esag. O projeto tem como foco principal fortalecer a iniciação científica e estimular a participação da comunidade acadêmica em projetos de pesquisa, com ênfase na linguagem simples.
Publicações do projeto:
DIAS ALPERSTEDT, G.; PIERRI ARDIGO, J.; FURTADO DA ROSA, E.; GONDIM ABREU, L.; CASTELLI SAVEDRA, L. Bem-estar animal nas cidades: uma revisão sistemática de literatura: Animal welfare in the cities: a literature systematic review. Ciências Sociais Aplicadas em Revista, [S. l.], v. 27, n. 47, p. 100–127, 2024.
Alperstedt, G. D., Sá, V. V. de, Crestani, M. C. de S., Ardigo, J. P., & Nodari, E. (2024). Crime Organizado como Problema Perverso: Contribuições da Epistemologia Sistêmico-Complexa-Transdisciplinar. Cuadernos De Educación Y Desarrollo - QUALIS A4, 16(6), e4589
Ardigo, J. P., & Alperstedt, G. D. (2025). RELAÇÃO HUMANO-ANIMAL NAS ORGANIZAÇÕES: EFEITOS DA PRESENÇA DE CÃES NO AMBIENTE UNIVERSITÁRIO. Vivências, 21(43), 39–59.
Núcleo de Comunicação da Udesc Esag
Jornalista Magali Moser
E-mail: comunicacao.esag@udesc.br