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Notícia

18/03/2026-14h46

Udesc+Ciência: Pesquisadores criam índice inédito para avaliar efeito de furacões no litoral caribenho

Projeto PróPraias é uma parceria internacional entre Udesc Laguna e Universidade de Antioquia, da Colômbia

Os estragos provocados por furacões e chuvas torrenciais não são iguais em todos os municípios costeiros. No Caribe colombiano, os mais vulneráveis costumam receber mais recursos, embora a distribuição dependa da capacidade administrativa local em demonstrar a necessidade dos investimentos. Para tornar esse processo mais preciso, pesquisadores da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) criaram um índice capaz de fornecer, em tempo real, informações sobre os impactos de eventos extremos no litoral caribenho. 

A pesquisa tem origem na dissertação de mestrado de Andrés Guarín, realizada junto ao Programa de Pós-Graduação em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Socioambiental (PPGPLAN), sob orientação do professor Eduardo Gentil, do curso de Ciências Biológicas da Udesc Laguna.  

Publicado em artigo, o estudo faz parte do PróPraias, projeto de cooperação científica internacional com a Universidade de Antioquia, da Colômbia. 

“Traduzimos um conjunto de variáveis ambientais para uma equação simples, pensando que isso pode gerar subsídio para políticas públicas”, explica Gentil, que coordena a parceria. 

No Brasil, as ações do PróPraias envolvem o Laboratório de Geomática e Sistemas Marinhos (GEOMar), liderado por Gentil, e o Laboratório de Ecologia Marinha (ECOMar), coordenado pelo professor David Dantas, ambos vinculados ao Centro de Educação Superior da Região Sul (Ceres).

Como funciona o índice

O índice de vulnerabilidade costeira foi criado para a faixa de praia de Árboletes, município da Colômbia localizado no mar do Caribe, e contém seis variáveis ambientais: geomorfologia, taxa de erosão costeira, precipitação, altura significativa de ondas, nível do mar e amplitude de marés. 

Para avaliar a eficácia do modelo, a equipe de pesquisadores analisou 14 frentes frias, 31 ciclones tropicais no Atlântico e três furacões (Zeta, Eta e Iota). Os testes confirmaram que o índice detectou alterações nos cenários antes, durante e após a ocorrência dos eventos extremos.

Outro resultado revelou que trabalhadores do setor de comércio e hotelaria estão mais suscetíveis aos efeitos dos fenômenos climáticos atípicos. Como as famílias costumam morar na zona costeira de topografia mais baixa de Árboletes, estão mais expostas à subida do nível do mar.

Por meio de monitoramento contínuo, o modelo pode gerar mapas de risco para melhorar o planejamento das zonas costeiras. Assim, gestores conseguem decidir com mais clareza sobre quais zonas devem receber planos de intervenção e adequação do litoral.

Impacto das obras de proteção costeira

Além do índice que avalia o efeito de furacões no litoral, outro projeto do PróPraias investigou o impacto de obras de engenharia costeira sobre as praias urbanas de Necoclí, no sudoeste do Caribe Colombiano. 

Segundo Gentil, construções como os espigões, que serviriam para conter a perda contínua de sedimento ocasionada pela erosão, podem apenas transferir o problema para as praias vizinhas, ao invés de resolvê-lo. Por isso, quem vive nas porções costeiras adjacentes acaba sendo mais afetado pelo fenômeno, como as comunidades ribeirinhas.  

Evidências científicas como estas podem subsidiar decisões junto ao poder público e diminuir custos – o governo colombiano empenhou mais de dois milhões de dólares na construção de 155 obras de proteção no início dos anos 2000. 

Também são um estímulo à busca por soluções baseadas na natureza na tentativa de bloquear o fenômeno da erosão. “Temos apostado em alternativas que causem menos impacto visual nas praias, ao contrário das obras pesadas da engenharia costeira”, assinala o professor.  

Etapa brasileira

Segundo estimativa do Ministério do Meio Ambiente, a erosão costeira atinge cerca de 60% dos 7,5 mil quilômetros do litoral brasileiro. O relatório contabiliza 27 municípios em Santa Catarina que estão suscetíveis ao problema. Nos últimos 30 anos, o Brasil perdeu 15% da faixa de areia nas praias por ocorrência do fenômeno. 

Atualmente, o projeto PróPraias investiga impactos pontuais sobre a qualidade ambiental das praias catarinenses. Uma das principais descobertas até agora, destaca Gentil, foi identificar que a contaminação por lixo marinho atinge até mesmo praias isoladas e pouco urbanizadas – como a Praia do Gravatá, em Laguna

A equipe também comprovou que o plástico contamina o trato digestivo dos peixes. Há eventual possibilidade de morte por inanição, adverte o professor.

“Funciona mais ou menos como uma cirurgia bariátrica. O animal deixa de se alimentar porque continua com a sensação de saciedade, já que o estômago está com plástico. Ele cresce, mas não ganha peso de forma adequada. Evidenciamos isso na região centro-sul de Santa Catarina”, conta Gentil.

De acordo com o professor, ainda não se sabe exatamente como a ingestão dos animais contaminados por plástico pode afetar os seres humanos.

“Do ponto de vista ecotoxicológico, existem muitas interrogações. Mas você já tem na literatura científica alguns indícios de, pelo menos, cinco tipos diferentes de câncer que podem ocorrer no nosso organismo”, complementa o professor.  

Qualidade ambiental das praias

Estudar as praias da América do Sul é como montar um quebra-cabeça, afirma Gentil. Foi por isso que o docente desmembrou o PróPraias em uma série de estudos específicos, a fim de produzir, no conjunto, uma avaliação sobre a qualidade ambiental das regiões costeiras. 

Para a comparação adequada entre os dois países, a equipe de pesquisadores optou por estudar regiões com perfis semelhantes. Na Colômbia, pesquisaram praias no entorno do Golfo de Urabá, pertencente ao Mar do Caribe; no Brasil, municípios abaixo de Florianópolis, em Santa Catarina. As duas porções escolhidas utilizam o litoral para atividades turísticas e de lazer, mantêm atividades portuárias e não possuem modelos econômicos com predomínio industrial.

“Uma das grandes fortalezas do projeto é ser uma parceria Sul-Sul. Existem diferenças econômicas entre Brasil e Colômbia, mas pegamos recortes espaciais que são comparáveis do ponto de vista ambiental”, esclarece o professor.

Tanto a gestão quanto o planejamento das praias requerem o estudo de diversos indicadores – desde o clima das ondas até o impacto das erosões costeiras. Por isso, o PróPraias é um projeto a longo prazo. O objetivo é construir um sistema de indicadores pertinente à realidade latino-americana. 

“Sabe-se muito pouco sobre a qualidade ambiental das praias da América do Sul”, afirma Gentil. 

No Brasil, relatórios de balneabilidade são fornecidos por órgãos estaduais e seguem os padrões definidos pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama)

Instituições estrangeiras também fornecem avaliações, embora adotem métricas que nem sempre atendem às características específicas da América do Sul, argumenta o docente. 

“Aqui temos grandes sistemas lagunares, planícies costeiras arenosas, extensos campos de dunas e predomínio de acumulação sedimentar na costa. As praias do outro lado do Atlântico são mais curtas e compartimentadas. Lá, predominam costas rochosas escarpadas e ambientes singulares - como os fiordes, nos países escandinavos, com forte herança glacial e tectônica”, explica.

Por fim, Gentil destaca a participação da Udesc em conselhos ambientais e em grupos de trabalho para trazer visibilidade e discutir os resultados das pesquisas. Dessa forma, os dados do PróPraias podem contribuir para revisar e aprimorar o gerenciamento costeiro.

“Esse intercâmbio, tão sadio, é o que justifica os custos que o contribuinte paga para a manutenção de instituições tão importantes como a Udesc”, finaliza o professor. 

Contate o pesquisador

Eduardo Gentil é professor da Udesc no Departamento de Ciências Biológicas do Centro de Educação Superior da Região Sul (Ceres), na Udesc Laguna, e professor permanente dos Programas de Pós-Graduação em Sistemas Costeiros e Lagunares (PPGSCOL/Udesc) e Planejamento Territorial e Desenvolvimento Socioambiental (PPGPLAN/Udesc). Coordena o Laboratório de Geomática e Sistemas Marinhos (GEOMar). Possui doutorado em Sensoriamento Remoto pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em regime de co-tutela com o Instituto Francês de Pesquisa para Exploração do Mar (Ifremer), na França. Atua nos seguintes temas: sistemas costeiros, geoprocessamento, sensoriamento remoto e economia azul.
E-mail: eduardo.gentil@udesc.br

Este texto integra o projeto Udesc+Ciência, produzido pela Secretaria de Comunicação da Udesc com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc). 


Assessoria de Comunicação da Udesc 
Jornalista Dairan Paul 
E-mail: comunicacao@udesc.br 
Telefone: (48) 3664- 8006 
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  • Imagem 1
  • Atividade de campo no Caribe Colombiano. Créditos: professor Vladimir Toro Universidade de Antioquia.
  • Atividade de campo no Caribe Colombiano. Créditos: professor Vladimir Toro Universidade de Antioquia.
  • Atividade de campo no Caribe Colombiano. Créditos: professor Vladimir Toro Universidade de Antioquia.
  • Equipe em Laguna utilizando uma estação total para realizar o levantamento dos perfis topográficos da praias. Créditos: acervo GTMar
  • Coleta de resíduos em Laguna. Créditos: acervo GTMar.
  • Praia de Bombinhas (SC), avaliada pelo projeto PróPraias. Créditos: acervo do GTMar.
  • Praia de Imbituba (SC), avaliada pelo projeto PróPraias. Créditos: acervo do GTMar.
  • Equipe de Laguna em trabalho de campo pelo projeto PróPraias. Créditos: acervo do GTMar.
  • Coleta de sedimentos em Laguna. Créditos: acervo do GTMar.
  • Equipe brasileira da Udesc Laguna. Créditos: acervo do GTMar.
  • Professor Eduardo Gentil, coordenador do PróPraias. Créditos: acervo pessoal.
  • Professor Eduardo Gentil, coordenador do PróPraias. Créditos: acervo pessoal.
 
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