Um dos momentos mais trabalhosos da rotina docente pode estar prestes a passar por uma transformação significativa na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). Pesquisadores do
Centro de Ciência da Administração e Socioeconômicas (Esag) desenvolvem um sistema de avaliação com monitoração contínua que promete auxiliar professores na elaboração, aplicação e correção de provas, tanto presenciais quanto à distância.
À frente da iniciativa está o professor Julibio David Ardigo, que resume a principal motivação do projeto: o tempo consumido pelos processos avaliativos.
“Estar em sala de aula é maravilhoso, ver os alunos aprenderem é fantástico. Mas quando chega na hora de avaliar, é um processo muito mecanizado”, afirma.
Segundo ele, a criação do instrumento de avaliação, sua aplicação e o feedback aos estudantes exigem um esforço repetitivo que poderia ser parcialmente automatizado, liberando o professor para investir no aprimoramento das próprias estratégias de ensino.
A proposta, no entanto, não é substituir o docente.
“A ideia não é suprimir a habilidade humana. Ninguém deixou de caminhar porque existe o carro. O carro ampliou a distância que a gente consegue percorrer”, compara.
Para o pesquisador, a inteligência artificial deve atuar como ferramenta de apoio, otimizando tarefas mecânicas e ampliando a capacidade de atuação do professor, e não desumanizando o processo educativo.
Garantia de identidade e parceria internacional
Um dos diferenciais do projeto é a integração entre avaliação e mecanismos de garantia de identidade do aluno, especialmente em contextos de ensino à distância. Para isso, a equipe conta com a colaboração de um pesquisador da University of Victoria, no Canadá.
A parceria internacional teve como foco o desenvolvimento de soluções para assegurar que o estudante que realiza uma prova online seja, de fato, quem diz ser. Em instituições estrangeiras, explica o professor Julibio, é comum haver um monitor para cada cinco alunos durante avaliações remotas. O uso de ferramentas tecnológicas capazes de emitir alertas sobre comportamentos suspeitos pode reduzir a necessidade de supervisão presencial intensa, sem eliminar a presença humana no processo.
No Brasil, onde muitos cursos ainda são majoritariamente presenciais, a demanda por esse tipo de controle é diferente. Ainda assim, o sistema busca se antecipar às tendências de flexibilização do ensino e ao crescimento das avaliações fora do ambiente tradicional de sala de aula.
Como funciona o sistema
O projeto, intitulado “Sistema de avaliação com monitoração contínua”, está inserido na grande área de Ciências Sociais Aplicadas, com foco em Administração. A proposta é validar e aprimorar uma solução em software livre que auxilie em três frentes principais: 1) elaboração de questões, com apoio na classificação e modelagem; 2) aplicação dinâmica das avaliações, reduzindo o risco de repetição e vazamento de itens; 3) correção automatizada, inclusive de questões abertas, com uso de técnicas de processamento de linguagem natural.
"A ideia é que o sistema possa ser customizado para diferentes plataformas de gestão de aprendizagem, sendo a versão inicial feita para o próprio Polvo, ambiente virtual desenvolvido na Udesc Esag e já utilizado há mais de uma década na graduação", explica o professor.
Metodologia incremental e fase atual
A pesquisa adota uma metodologia incremental, com ciclos sucessivos de desenvolvimento, aplicação e validação. A expectativa é que, ainda neste semestre, uma versão beta seja disponibilizada para aplicação em disciplinas da Udesc Esag, mediante concordância de professores e alunos.
A partir do uso prático, os pesquisadores pretendem coletar dados que permitam corrigir falhas, incorporar melhorias e gerar uma base inédita de informações sobre o comportamento dos estudantes durante avaliações.
O projeto conta com fomento da Fapesc e apoio institucional da própria Udesc, que viabiliza a dedicação de carga horária docente para o desenvolvimento da pesquisa.
Entre o medo e o entusiasmo
Para o professor Julíbio, um dos maiores desafios não é técnico, mas cultural: o receio em relação à inteligência artificial. Ele compara o momento atual ao surgimento da internet nos anos 1990, quando muitos acreditavam que o ser humano seria deixado de lado.
“A IA vai ampliar nossa capacidade e nos poupar tempo em tarefas repetitivas. O maior desafio é mostrar que ela não veio competir com a gente, mas ajudar”, avalia. Ao mesmo tempo, ele alerta para o risco de colocar a tecnologia no centro das decisões educacionais. “Eu sou um entusiasta, mas a tecnologia é instrumento. O centro precisa continuar sendo o ser humano.”
Se depender da equipe da Udesc Esag, o futuro das avaliações acadêmicas passará menos por processos mecânicos e mais por inteligência estratégica, seja humana e artificial trabalhando lado a lado.
Esta reportagem integra a série Ciência que transforma, da Udesc Esag. O projeto tem como foco principal fortalecer a iniciação científica e estimular a participação da comunidade acadêmica em projetos de pesquisa, com ênfase na linguagem simples.
Núcleo de Comunicação da Udesc Esag
Jornalista Magali Moser
E-mail: comunicacao.esag@udesc.br